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Daynara de Paula (Natação)

17/09/2015
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Por Katryn Dias

Nos últimos anos, a natação feminina do Brasil vem crescendo consideravelmente. E uma das responsáveis pelos bons resultados é Daynara de Paula. Aos 25 anos, ela é uma das nadadoras mais experientes da seleção e recentemente conquistou um feito inédito: foi campeã de uma prova do Circuito Americano.

Especialista em nado borboleta, Daynara sonha com sua terceira participação olímpica, no Rio, focada em alcançar uma final pela primeira vez. 

 

 

Esporte Essencial: Como foi a sua iniciação no esporte?

olho1_200_04Daynara de Paula: Minha mãe me colocou na natação depois de um baita susto. Eu tinha seis anos e fiz uma aposta com um amiguinho, nós íamos atravessar uma piscina no sítio dele. O problema é que eu nunca tinha nadado (risos). Mesmo assim, aceitei a aposta e nós mergulhamos. Ainda bem que ganhei e não aconteceu nada sério! Mas quando me viu dentro da piscina, minha mãe ficou branca e me tirou da água correndo. No dia seguinte, já me matriculou na natação. Foi bem desesperador para ela.

Passei a ir sempre às aulas, tanto no meu horário quanto no da minha irmã. Isso até a minha mãe descobrir, lógico (risos). Então, ela brigou com nós duas. Depois de algum tempo, comecei querer entrar na equipe de natação de Jacareí, minha cidade, e consegui. Aí teve uma competição chamada Peixinhos e Golfinhos (hoje em dia essa competição é feita pelo Sesi), onde a Fabiola Molina distribuía os troféus, e foi minha primeira conquista, aos oito anos. Quando recebi o troféu das mãos da Fabíola Molina, falei para a minha mãe que também queria ser uma nadadora olímpica. E foi assim... 

EE: Quando você percebeu que estava levando a brincadeira mais a sério?

DP: A partir dos meus 15 anos, passei a treinar mais forte e focar mais. Foi quando tive que sair do interior e ir para São Caetano, porque a piscina da cidade ia fechar. Em 2006, consegui fazer meu primeiro recorde sul-americano, quando ganhei da Rebeca Gusmão. No ano seguinte, fiquei fora do Pan por onze centésimos. Isso me deu mais gás para fazer meu índice olímpico, em 2008, quando nadei pela primeira vez para 59s3 e consegui vaga para as Olimpíadas de Pequim.

olho2_200_03EE: Você acha que ter começado cedo fez diferença para chegar ao alto rendimento?

DP: Na verdade, comecei tarde. Geralmente, as meninas começam bem mais novas do que eu. Mas acho que isso não faz diferença. Se você gosta do que faz, tem um pouquinho de talento e é dedicado, o resultado sempre vem. Não só no esporte, como na profissão também. Eu tenho muito essa filosofia: se você quer, faça por onde.

EE: Você já começou a ser patrocinada aos 11 anos, não foi? Nessa caso, você era bem nova, não acha?

DP: Isso. Comecei a ser patrocinada pelos Alimentos Ruston, do Arroz Fantástico, lá de Jacareí. Graças a eles consegui chegar até onde estou. Foram eles que bancaram minhas viagens, minha mãe nunca teve condições. Eu era nova, mas era uma cidade de interior, o dono era ex-atleta, treinou com o meu técnico e via meu potencial. Em menos de um ano, eu já consegui ganhar uma competição de um circuito pequeno. No ano seguinte, fui campeã paulista. Depois fui campeã brasileira. Ele acreditou em mim e até hoje eu agradeço por isso.

daynara-de-paula-piscina-texto_450EE: Como foi sua infância e adolescência diante das responsabilidades com os treinos? Você se arrepende de alguma coisa?

DP: Para falar a verdade, foi bem cansativo! Acordava um pouco antes das 4h, porque minha mãe não tinha carro e eu tinha que ir para o treino de bicicleta. Às 5h, eu tinha que estar dentro da piscina puxando raia. Depois, ia para a escolar, voltava para casa, para o treino e escola de novo, porque era pré-vestibular. Foi um período bem focado no meu sonho mesmo. Eu sabia que queria ser nadadora olímpica, então fiz por onde. Foi bem cansativo, mas hoje em dia não me arrependo. Faria tudo de novo!

 

Experiência olímpica

 

olho3_200_05EE: Você disputou as Olimpíadas de Pequim aos 18 anos, a nadadora mais jovem da equipe da natação brasileira. Como foi essa experiência? 

DP: Eu fui a mais nova e ainda era a minha primeira seleção absoluta. Então, eu não tinha noção do que era uma competição de tal nível. No comecei em um campeonato menor, como o Sul-Americano. Já entrei em uma competição muito forte e fiquei deslumbrada, lógico. Cheguei à vila e encontrei o time americano de basquete, a equipe brasileira de vôlei, Michael Phelps... Fiquei deslumbrada. Em Pequim, caiu a ficha que eu estava no lugar onde só tinham os melhores atletas do mundo inteiro. Fiquei em choque.

EE: O que mudou depois disso?

DP: Ah, eu amadureci. A idade ajuda... Hoje em dia já sei me comportar. Vou ver o Michael Phelps do meu lado e não vou mais ficar em choque. Vou saber continuar minha rotina normalmente, não vou perder o foco com isso. Sei o que posso ou não fazer. Minha cabeça mudou muito!

 

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Daynara ao lado dos americanos Cullen Jones e Michael Phelps

 

EE: Conseguiu lidar bem com essas situações no Pan de Toronto, esse ano?

DP: Olha, como foi o meu segundo Pan, eu estava tranquila. Fui para Toronto superanimada, o clima da vila é contagiante. Eu já sabia como era a competição, muito gostosa de se participar. Não é tão cansativa, consegui ter dias de descanso.

 

Pan de Toronto

 

olho4_200_03EE: Em Toronto, você conquistou duas medalhas de bronze, nos revezamentos 4x100m livre e 4x100m medley. Você acha que o ouro era possível?

DP: Tudo é possível, o impossível só Deus faz. Todo atleta, independente do país ou do esporte, entra na disputa para ser o primeiro. Esse era meu objetivo. Não deu, mas nós mostramos que a natação brasileira está forte e ganhamos um pouco de moral para as Olimpíadas, do ano que vem.

EE: O time do revezamento brasileiro tinha nomes fortes, como as campeãs mundiais Etiene Medeiros e Larissa Oliveira. Como foi fazer parte dessa equipe?

DP: No Pan, com certeza a parte mais divertida foram os revezamentos. Na última edição, em Guadalajara, conseguimos a prata. Este ano, eu sabia que estávamos muito próximas de conseguir o ouro, porque estávamos com grandes nadadoras. Nós brigamos pela primeira colocação, mas veio o bronze. Eu já tinha a prata e queria sentir a sensação de conquistar o ouro, mas não foi dessa vez.

 

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Daynara comemora com as companheiras do revezamento: Larissa Oliveira, Graciele Herrmann e Etiene Medeiros 

 

EE: Você teve uma preparação especial para o Pan?

DP: O treinamento teve mudanças na parte física. Nós misturamos um pouquinho de cross fit, voltado para natação. Foi bem divertido e diferente. Consegui ficar mais forte e resistente. Antes do Pan, participei de uma competição nos Estados Unidos onde consegui ser campeã, então esse treinamento fez total diferença. A minha volta está muito boa. Consegui ter a melhor volta da prova, momento onde eu sempre perdia. Para falar a verdade, mudei um pouquinho o meu estilo, mas acho que foi para melhor.

EE: Falando nessa conquista, você ganhou a primeira medalha de ouro da história da natação feminina do Brasil no Circuito Americano. Pode contar um pouquinho mais sobre como foi essa conquista?

DP: Para falar a verdade, eu não esperava esse título. Foi uma surpresa, nem vi a menina do meu lado. Tenho uma respiração lateral, que todo mundo fala que é para ver o adversário, mas na verdade eu nunca vejo nada. Só respiro lateral para não levantar muito a cabeça. Quando bati no placar, fiquei em choque, porque foi um tempo bom para fase de treinamento. O que eu mais gostei foi que consegui fechar para uma das melhores passagens da minha vida. Nos últimos 50m, coloquei na cabeça que queria fazer tal tempo e fui, o que para mim foi surpreendente.

 

A perspectiva de nadar em casa

 

olho5_200_03EE: Rio 2016 é um sonho? É diferente competir em casa? 

DP: Nossa, para mim faz total diferença competir em casa. Tanto para o lado positivo quanto para o negativo. Tem pessoas que não entendem e vão julgar mal. Mas pelo lado positivo é maravilhoso. Se ouvir alguns brasileiros gritando “Vai, Brasil” já motiva, imagina uma arquibancada inteira! O meu maior sonho é conseguir ganhar e escutar o hino no meu país.

EE: Você se abala com pressão por resultados?

DP: Já me abalei, hoje em dia simplesmente dou risada. As pessoas não sabem o que acontece no nosso dia a dia. Eu tento evoluir com isso. Se a pessoa critica, eu aceito e não falo mais nada. Não sou uma pessoa polêmica. Eu faço o meu.

EE: A torcida pode esperar você em uma final olímpica?

DP: É o que eu venho treinando a duas Olimpíadas para alcançar.

 

Natação feminina no Brasil

 

olho6_200_03EE: Ainda hoje a natação feminina recebe menos destaque do que a masculina no Brasil. Ao que se deve esse fato? 

DP: A verdade é que o Brasil não tem nadadoras. Se você for olhar uma competição nacional, vai perceber que tem muitos homens e poucas mulheres. São poucas as nadadoras que continuam. Por isso, não temos grandes nadadoras em quantidade. Eu sou a segunda mais velha da seleção e só tenho 25 anos.

EE: O que você acha que poderia ser feito para melhorar isso?

DP: Não sei. Eu tento motivar ao máximo as crianças mais novas. Quando ganho uniforme, dou para elas, querendo dizer “por favor, continuem treinando”. Tento motivá-las e explicar que é uma sensação muito boa representar o Brasil. Mas a pessoa tem que realmente gostar e querer seguir no alto rendimento. 

EE: Você acha que a nova geração da modalidade, que vem conquistando resultados relevantes, está mudando essa tradição? Está motivando essas crianças?

olho8_200_02DP: Eu acho que tudo começa da base. Para ter grandes nadadoras, é preciso começar o trabalho da base. Se você está moldando a criança mostrando que ela pode ser campeã, ela vai acreditar. É uma criança, não existem limites para ela. Agora, se ela crescer com limites, achando que não vai conseguir, ela não vai seguir em frente. Por isso, é preciso motivá-la, dizendo que se ela realmente quer uma coisa, é só ir lá e fazer. Precisamos motivar as próximas gerações. Hoje em dia as crianças já são completamente profissionais. Tem criança que não come chocolate! Isso para mim é absurdo (risos). Na minha primeira Olimpíada (e eu nem era criança, tinha 18 anos), levei 14 pacotes de biscoito recheado (risos). Hoje em dia as meninas já ficam desesperadas se comem uma barra de chocolate. Eles são completamente profissionais, eu acho isso surreal.

EE: Como você avalia a gestão dos esportes aquáticos no Brasil?

DP: Eu acho que esse ano, eles estão investindo bastante. O nosso polo aquático masculino deu um super-resultado. O Brasil nunca tinha conseguido uma medalha e eles conseguiram o bronze [na Liga Mundial]. 

Para a natação, especificamente, também houve mudanças. Eles dividiram a equipe entre masculino e feminino, então estamos conseguindo ter mais atenção. Com isso, o feminino consegue resultados melhores. Tivemos nossa primeira campeã mundial individual [Etiene Medeiros], eu consegui ser a primeira campeã brasileira em um circuito americano... Acho que a iniciativa está correta.

olho11_200_01EE: Você diz dividir a equipe... Antes vocês treinavam juntos?

DP: Não exatamente, mas era um mesmo programa para o masculino e o feminino. Então nós tínhamos que nos enquadrar aos meninos. Mas nosso treinamento não é e não pode ser igual ao dos homens. Agora, temos um técnico para a seleção masculina e outro para a feminina. Nós fazemos a nossa programação e eles, a deles. Individualizou bastante. Isso ajudou, até porque nós ainda não estamos no mesmo nível dos meninos.

EE: Você ainda é nova, mas é importante pensar no futuro. Você tem ideia do que gostaria de fazer quando parar de nadar? Pensa em trabalhar com esporte no pós-carreira?

DP: Claro que penso nisso. Faculdade eu sempre tento terminar, mas bombo por falta (risos). Nem todas as faculdades entendem o lado dos atletas. Mas eu sei que eles estão certos, não tem como formar uma pessoa sem saber o conteúdo. Então, tranquei a matrícula mais uma vez, estou esperando passar a Olimpíada e vou voltar para fazer meu curso de Economia. Eu adoro um escritório! Ficar sentada lá no ar-condicionado... (risos) Mas pode ser que meu trabalho tenha relação com o esporte, não sei. Eu sou boa dando palestras motivacionais para crianças, adoro ir a clínicas... Eu me sinto bem e faria isso também. Ainda não parei realmente para fazer planos. Meu maior planejamento de longo prazo é agora até as Olimpíadas, depois refaço meus planos.

daynara-nadando-texto_450EE: Qual você diria que é sua maior qualidade dentro da piscina, aquilo que te destaca?

DP: Acho que o meu início de braçada é muito bom. Eu consigo ficar em cima d’água com facilidade. Acho que esse é o meu diferencial. Como eu sou pequenininha, sei que tenho que largar na frente (risos).

EE: Você já foi punida por doping. Qual a sua posição sobre o doping no esporte?

DP: Não falo mais sobre o meu caso porque é passado. Eu sou totalmente contra o doping porque torna o esporte injusto. Se você quer ser o melhor, tem que se dedicar todos os dias.

EE: Para você, o esporte é essencial?

DP: Ai, eu não consigo viver mais sem o esporte, faz parte da minha rotina. Até quando parar de nadar profissionalmente vou continuar praticando. Eu me sinto bem com o esporte, para mim é saúde, para a minha mente e o meu corpo.

Daynara é atleta do Time Sou do Esporte, clique para patrociná-la

 

Fotos: Arquivo pessoal da atleta


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