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ENTREVISTAS

Carlos Arthur Nuzman (Presidente do COB)

17/03/2014
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Por Fabiana Bentes

Muito já se falou sobre a história de vida e trajetória profissional de Carlos Arthur Nuzman. Em um breve resumo, Nuzman integrou a seleção brasileira de voleibol entre 1957 e 1972, presidiu a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) entre 1975 e 1995 e, desde então está à frente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Nuzman também ocupa o cargo de presidente do Comitê Organizador dos Jogos de 2016, algo inédito na história dos Jogos, já que nenhum presidente de Comitê local comandou a organização dos Jogos Olímpicos em seu país.

Nesta entrevista exclusiva para a jornalista Fabiana Bentes, diretora do Esporte Essencial, Nuzman fala sobre como ele enxerga sua trajetória no esporte e prevê um resultado expressivo do trabalho do COB apenas nos Jogos Olímpicos de 2020.

Na editoria Memória Olímpica, você poderá conhecer mais sobre a história do COB e de Carlos Arthur Nuzman.

*Ao final da entrevista, nota da jornalista Fabiana Bentes.

 

De atleta à dirigente

 

Esporte Essencial: Excelência é um valor que todos os atletas de alto-rendimento buscam, mas entre os valores olímpicos Amizade e Respeito, qual destes dois representa sua carreira como atleta e como presidente do COB? 

Carlos Nuzman: Vou procurar responder dentro de alguns conceitos, umas respostas mais objetivas e outras nem tanto. Quando nós falamos em valores do esporte, acho que temos que colocar que os valores representam direitos e obrigações, senão fica parecendo que só têm direitos e não têm obrigações. Os valores passam por responsabilidade, dedicação, profissionalismo, vontade, respeito, amizade, consciência e a visão de onde o atleta vai poder chegar. Se não tivermos esses conjuntos, esses valores não vão estar atendidos. Pode até ser que eu tenha me esquecido de alguns valores, mas esses são fundamentais.

nuzman-pele-cob_450Se me perguntarem quem é o atleta profissional mais profissional que conheço, vou responder com uma facilidade enorme: Robert Scheidt. Não conheço nenhum atleta mais profissional. Não conheço nenhum atleta com maior conscientização dos seus direitos e das suas obrigações do que Scheidt. Não hesito em nada o que estou dizendo, ele tem tudo isso. Por isso ele é o que ele é. Já tem muito tempo em relação à minha época como atleta. No meu esporte, o voleibol, prevalecia os países da chamada “cortina de ferro”. Poderia até dar alguns nomes, mas não sei de exemplos como esse. Mas acho que o grande nome que vai ter em qualquer momento será o do Pelé. É um grande exemplo em tudo. E o Pelé fez uma coisa que eu fiz, e não tem nada de comparações.Vou explicar. Aprendi muito cedo a responsabilidade e saber diferenciar as coisas por três motivos. O primeiro que venho da escola, não venho de clube. E eu me orgulho disso, de não ter vindo de clube, de ter vindo de escola. Eu aprendi os valores com professores. O segundo motivo, e eles não estão numa ordem de importância, foi servir o Exército, como o Pelé também serviu. Fui soldado. Todo jovem devia servir o Exército. Então, você tem responsabilidade. E fui soldado raso! Se me perguntarem, eu sei engraxar, sei costurar, sei passar a ferro, sou prendado! E o terceiro motivo é saber se colocar nos momentos que você vai ter dificuldades, para poder superar e poder acreditar.

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EE: O senhor passou por dificuldades de patrocínios na sua carreira, da base até o alto rendimento? Qual foi o seu pior momento como atleta?

nuzman_22-texto_432CN: Eu não tinha patrocínio, não tinha treinamento diário e fui à Olimpíada. Na minha época, não havia mídia para poder reclamar e ainda assim fui à Olimpíada. Fui cortado do Pan-Americano de 1963, de São Paulo. Fui o último a ser cortado, no dia que fiz 21 anos. Era para me abater. O pior na carreira para o atleta sempre está relacionado ao corte. O melhor é ter ido à Olimpíada. 

EE: Quando o senhor decidiu ser presidente do COB, quais eram suas aspirações de mudança no esporte brasileiro? Estas aspirações se concretizaram?

CN: Vou contar a minha história antes de ser dirigente. Eu quis ser técnico. Aliás, todo atleta quer ser. E comecei a tentar ser técnico, mas via que as criancinhas não aprendiam. Um horror (risos). Pensei: estou no lugar errado. Parei. Depois disso, quando estava eu no final da carreira, surgiu um movimento para ser presidente da Federação de Voleibol do Rio de Janeiro. E eu disse: olha, ser presidente da Federação do Rio não é o que eu quero. Meu sonho, então, é ser presidente da Confederação Brasileira de Voleibol. E quero que vocês saibam que vou entrar, mas vou fazer campanha para ser presidente. E assim foi feito. Eles aceitaram. Fiz campanha porque acreditava no atleta brasileiro. Tanto foi que transformei o voleibol de 13º do mundo em campeão olímpico. Essa caminhada da decisão de ser dirigente foi natural. É também natural após o sucesso como dirigente no seu esporte, que se almeje um outro salto e o outro salto seria ser presidente do Comitê Olímpico Brasileiro. Também perdi uma eleição.

1_200Então, estou muito à vontade para dizer que conheço os dois lados. Da mesma maneira que conheço o que é ganhar uma final olímpica e sei o que é perder uma final olímpica. Acho que tudo isso te dá uma experiência de vida extraordinária. São ensinamentos que não se aprende em lugar nenhum. Quando estava na Confederação Brasileira de Voleibol e almejei ir para o Comitê Olímpico, também era natural eu querer trazer uma Olimpíada para o Brasil. Então, a minha história de dirigente é uma história de desafios, com objetivos a serem alcançados.


EE: O senhor poderia citar a maior vitória e a maior derrota na sua administração? Algo que o senhor se arrepende de não ter feito até o momento? 

CN: O que mais me orgulho é fácil. A maior vitória que tive no esporte foi ter ganhado os Jogos Olímpicos para o Rio. Isso é inquestionável em um país e um continente que nunca organizaram os Jogos. Não sou de me arrepender porque peso muito as coisas, valorizo o que fiz. E mais, aprendi que a gente erra. Então, ao aprender que você erra, você tem que corrigir na frente e, aí, não te dá tempo para arrependimentos. Não posso reclamar. Comecei do zero. 

4_200Por exemplo, comecei na Confederação Brasileira de Voleibol com dois funcionários, e deixei com 50 funcionários, campeão olímpico, com dinheiro em caixa. Não posso reclamar mesmo. No Comitê Olímpico, eu cheguei e tinham oito funcionários, um eu despedi e fiquei com sete. O trabalho era de meio expediente, de 13h às 17h. Hoje se trabalha o dia inteiro, sábado, domingo. Nós temos 150 funcionários, temos recursos. Essa caminhada é uma caminhada que você vai esbarrar com dificuldades e vai trabalhar para supera-las. 

 

Contra ou a favor?

 

EE: Existem iniciativas privadas ocorrendo no Brasil inteiro para o esporte. Dentro do escopo do nosso trabalho, há o resgate da história olímpica e paralímpica do Brasil, o trabalho educacional do Esporte Essencial, onde o foco é na educação olímpica em escolas, em questões sociais como a violência escolar e, principalmente, o despertar dos jovens para o esporte. No caso do projeto Sou do Esporte, estamos ligados diretamente à manutenção destes atletas no esporte com apoio de empresas. Além das nossas ações, obviamente, há outras iniciativas como a organização Atletas do Brasil, Magic Paula com a Petrobrás, Projeto Grael, etc. Qual é a sua opinião frente a estas iniciativas? Estas ações paralelas preenchem espaços vazios do esporte ou são simplesmente ações aleatórias? 

5_200CN: Uma resposta muito ampla. Eu não tinha o Ministério do Esporte, não tinha recursos, a lei que existe hoje fui eu que consegui, a propaganda no uniforme quem conseguiu fui eu, igual ao Robinson Crusoé na ilha deserta. Então são conquistas pessoais que transformaram o esporte brasileiro. Acho que todos têm o direito de fazer tudo aquilo que quiserem. Uns vão ter sucesso, outros vão ter insucesso. Prefiro assistir o que cada um está fazendo. Quem quiser fazer junto com o COB, nós temos as portas abertas e vamos fazer juntos. Aqueles que quiserem fazer separados, boa sorte. Eu ainda não assisti grandes vitórias desses que fizeram separados. Gostaria de assistir porque nós precisamos. Precisamos de gente e muitos ficaram pelo caminho, muitos deixaram as suas entidades porque tinham dívidas, outros não conseguiram concretizar porque não tem o menor conhecimento de ser dirigente, acham que é fácil. Os louros do atleta você não transforma para o outro lado da mesa. Na hora que você passa para o outro lado, a coisa complica. Então é dessa maneira. Mas eu espero que aqueles que queiram fazer possam ter resultados importantes, porque o atleta precisa disso. Lógico que muitos deles não se sentiram confortáveis com programas que não foram feitos junto com o Comitê, mas, just life, assim é a vida.


Jogos Olímpicos


EE: Qual a análise que faz dos resultados do Brasil nos Jogos Olímpicos durante a sua gestão? O senhor classifica como ruim, regular, bom, ou excelente? 

CN: Bom, acho que foi muito bom. O COB faz 100 anos esse ano. Primeira participação do Brasil foi em Antuérpia, em 1920. Eu assumi em 1995, 75 anos depois. Estou há 17 anos. Em 17 anos, eu conquistei mais medalhas do quem em 75 anos. Nada é parecido com o número de conquistas que nós conseguimos. Nós sempre conseguimos com dois dígitos. O Brasil ia à Olimpíada e ganhava uma, duas, três medalhas. Hoje, estamos falando em 15, 17, além do número de finalistas. Vamos tentar chegar em 10º lugar na classificação geral. Sei que é um desafio fortíssimo, mas gosto de desafio, então tem que ser. Mas acho que o resultado do Brasil tem mostrado ao mundo esse esforço. O Comitê Olímpico Brasileiro é o comitê reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional como o número um de trabalho no mundo.

 

tabela-correta_1138Infográfico: Isadora Martinelli


EE: Ano passado tivemos um grande impacto no esporte com os protestos que abordavam também o “padrão FIFA” e o dinheiro gasto na construção dos estádios. Como o COB está lidando com esta nova realidade?

6_200CN: Tem dois pontos para serem falados sobre isso. O primeiro é dizer que a manifestação é um ato da democracia, é feito não só no Brasil, como em muitos países do mundo. Sempre defendi que a crítica é importante para o aprendizado. Sempre estive com as portas abertas para quem quer que fosse, mesmo que não gostasse, para poder conversar. Então faz parte da vida democrática, não tenho nada contra. A outra é em relação ao que a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos vão representar. Vão representar o que o Brasil não teve e não terá nas próximas décadas, a rara oportunidade de realizar estes eventos. Isso é a maior conquista que o esporte pode dar e a maior lição de educação que vai ser dada ao país. Agora, precisa ver e olhar como é, sem entrar em algumas questões polêmicas que irão aparecer pelo meio do caminho. Mas acho que é isso. Os nossos patrocinadores estão trabalhando de uma maneira muito franca e direta, sem problema nenhum. Não devem temer. Na vida, as pessoas crescem dentro das reais situações que têm os seus países e o mundo. É assim que deve ser encarado.

EE: Quais as estratégias o COB pretende utilizar, visto que, em situações bem diferentes, causadas por motivos diferentes, a Rússia isolou Sochi. Teríamos um isolamento para assegurar o bom andamento dos Jogos no Rio de Janeiro?

CN: Duas coisas, sempre. Nós temos a maior confiança de que tudo vai sair muito bem. Acho que a Copa do Mundo do Brasil será extraordinária. Vai ser uma Copa exemplar, de transformação e de mudanças que serão apresentadas. Da mesma maneira, não tenho a menor dúvida que os Jogos do Rio irão transmitir esse mesmo espírito de segurança, organização e realização.

EE: O Comitê Organizador de Rio 2016 preparou algum grupo para acompanhar os problemas que o Comitê Organizador Local (COL) da Copa está tendo na organização de um evento de tal porte?

CN: O Comitê Organizador tem uma relação com o COL da Copa, o que é natural. Existem algumas áreas que são similares e há equipes que têm trabalhado juntas e vão trabalhar durante a Copa como observadores. Da mesma maneira como houve observadores em Sochi, e como fizeram também em Londres.

jacquesengenh7-texto_450EE: Para ser legado, a sociedade precisa aceitar, as grandes obras precisam ser administráveis e a população deve usufruir. O senhor acredita que a Olimpíada terá um legado desta forma? Administrável, utilizável e com boa aceitação popular? 

CN: O maior legado foi ter ganhado os Jogos Olímpicos. Nenhum legado vai ser parecido. E a história do movimento olímpico internacional comprova isso. As grandes transformações que passaram o povo e o esporte. Com relação às instalações, todas elas estão sendo feitas para serem deixadas como legados, todas. Também vamos fazer instalações temporárias e, com isso, não vamos ter elefantes brancos. Esse é o objetivo e o ponto principal, tanto nosso quanto dos governos.

EE: Qual será, na sua expectativa, o legado esportivo para os atletas de alto rendimento?  CTS, pós-carreira, patrocínios?

CN: Acho que esses programas citados são muito importantes. Eles devem ser tratados de uma maneira muito profunda pelas áreas e setores da sociedade que estarão envolvidos. Espero que isso seja altamente positivo. Nossa obrigação é organizar os Jogos, fazer os Jogos e elaborar um relatório. O legado está sendo preparado para ser distribuído, e vai ser distribuído. Agora, tem pontos que você falou que irão depender de outros fatores. O Comitê Olímpico trata muito da parte do pós-carreira. Tanto que hoje temos no Comitê 24 atletas olímpicos. 

7_200_01Se me pedirem um conselho aos atletas, independente deles estudarem ou não, seria: fale inglês. Tem muitos craques e atletas excepcionais que não estão sendo aproveitados porque não falam o inglês. O Instituto Olímpico Brasileiro, que é a universidade do esporte, fornece cursos de gestão para atletas, para dirigentes, tem a Academia Brasileira de Treinadores e o Programa de Apoio ao Atleta. A Academia de Treinadores está na segunda edição. Cada uma delas com 200 atletas. Mas o trabalho do Instituto Brasileiro talvez tenha sido um dos meus grandes sonhos. Hoje se torna realidade graças ao extraordinário trabalho do Augusto Heleno. Estive na abertura do segundo curso para treinadores, com alunos que foram campeões olímpicos e campeões mundiais. É excepcional. A temática da atual turma é a área de combate. Nós já tivemos áreas de atletismo, natação e ginástica artística. Agora está com judô, taekwondo e lutas associadas. É um curso de dois anos. A nossa ideia é que isso se abra para todo o país. Nós estamos apenas testando. Essa mão de obra, com a formação desses gestores, tem sido aproveitada pelo Comitê, por Confederações Brasileiras e clubes. Mas, de novo, temos esbarrado na língua estrangeira. É preciso saber falar inglês.

EE: Qual o tipo de Olimpíada, em se tratando de megaevento esportivo, que o Brasil pode esperar? Uma festa espetacular, como a de Pequim, ou uma cerimônia menos exuberante, mas super especial como a dos Jogos de Londres?

CN: Cada cidade faz a sua Olimpíada. Ninguém consegue fazer uma Olimpíada igual. A geografia é diferente, a transformação é diferente, as necessidades, o temperamento da população, o espírito que ela vai ter. Aqui vai ser a Olimpíada da celebração, na verdade da transformação e celebração. Tomara que possamos ter um pouquinho de cada, que é o que todo mundo procura fazer.

nuzman-tocha-pan-2007-texto_459_01EE: O senhor poderia fazer uma comparação entre a repercussão do Pan 2007, dos problemas ocorridos, e quais poderiam se repetir no Rio 2016 e como o COB intervém junto à Autoridade Pública Olímpica (APO) para amenizá-los? 

CN: Acho que o Pan-Americano foi um grande sucesso. Foi o maior evento que o país já fez, com resultados esportivos extraordinários, e com resultados de instalações esportivas magníficas. Todas estão sendo aproveitadas para os Jogos Olímpicos. Então, o legado é ótimo. A questão do velódromo já era prevista, ele era um misto de temporário porque não tinha condição de continuar. Desta forma, teve que ser desmontado. A relação ao Julio Delamare e ao Célio de Barros, é preciso lembrar que os grandes estádios do mundo têm espaços físicos para estacionamentos e lojas. Sei que quando você fala de modernidade, você muitas vezes choca pessoas que são conservadoras, que acham que tem que deixar como é. Como já ouvi de muitos que o templo sagrado do Maracanã não podia ser mudado. Wembley é um dos templos sagrados do futebol mundial e foi demolido, feito outro. Atlanta demoliu o estádio, fez um novo, fez a Olimpíada e está demolindo a arena construída para o evento. Então, se o Julio Delamare está sendo reaproveitado, fico contente. O Célio de Barros sequer tinha um Centro de Treinamento, sequer tive competições num passado longínquo. Hoje ele não tem a menor condição. Acho que eles deviam aceitar a proposta do Governador e fazer, num terreno depois da linha férrea, um estádio. Local que se pudesse, até poderia ser temporário, não é fazer um estádio. Fazer a pista com espaço e colocar arquibancada, e você monta e faz virar um Centro e Treinamento de Atletismo, que hoje não existe. Existem espaços para fazer Centro Olímpico para treinamento no Rio, mas que não foram feitos. Na análise que deve ser feita, acho que tem que ser pensado dessa maneira. 

8_200Lições? É obvio que nós tivemos lições no Pan-Americano. Diversas lições de estrutura, de organização, que estamos, evidentemente, modificando para os Jogos Olímpicos. Até pelo próprio tamanho. Nós ganhamos os Jogos Olímpicos. No Brasil tinham três pessoas que sabiam fazer os Jogos Olímpicos e nós fomos contratando gente que foi aprendendo. Tive que trazer gente de fora. Então, na candidatura, nós já tínhamos uma equipe e essa equipe continuou para os Jogos Olímpicos. O próprio trabalho com vários sistemas de treinamento foi importante e, da organização é você adaptar e modernizar tudo que foi do Pan-Americano. E o Pan foi um sucesso, considerado o melhor da história. Então, o lucro que teve do legado foi melhorado. 

As contas, veja bem, elas têm que ser divididas de duas maneiras. O que é do comitê organizador e o que é feito para instalações esportivas e para questões de infraestrutura de obras públicas. Você vai ver o cenário semelhante para a Olimpíada. Nós dissemos nosso orçamento em 2005 e ele foi até o final. Obras, toda vez que você fizer obras, que é para a população, você está fazendo infraestrutura, você está melhorando a vida da população. Ela não pode entrar na conta da organização de uma Olimpíada. E as partes de instalações esportivas foram feitas. Nós temos um dos mais modernos Centros de Tiro do mundo. Nós temos um dos melhores, da América Latina, o melhor Centro de Hipismo que tem. Você já entrou num hospital de cavalo? Impressionante! Vi um cavalo andando na esteira, um cavalo branco, que eu queria levar para minha casa. E você ver a esteira começar 9_200_02lenta e ele vai no trote e, de repente, vai aumentando e ele está galopando como se fosse em um Grande Prêmio Brasil no Jockey Clube. Incrível. E o hospital, me chocou ver como se pega o cavalo com uma alça pela barriga para botar numa mesa de cirurgia! Você está acostumado com centro cirúrgico de hospital aqui. Agora, o hospital está pronto. De repente, se aumenta o hospital? De repente se aumenta, mas a instalação, ela está lá. Tem baias de cavalos que são espetaculares. Quase duzentas vagas. Então esses foram desafios importantes.

Você ter a Arena que se tem hoje, do HSBC, que é igual à Arena dos times da NBA. Você ter um Parque Aquático, um dos melhores do mundo. Ver por dentro o que tem de coisas é impressionante. Usamos como salas de aulas. Então essas instalações foram muito importantes. A própria dimensão do que isso representa. A cidade de Guadalajara fez o Pan-Americano seguinte e foi barrado para os Jogos Olímpicos da Juventude. Vejo dessa maneira. Outra coisa, você tem que corrigir os valores. Você não pode pegar o valor originário de um orçamento e levar para anos depois para você poder dizer que esse orçamento custou mais ou custou menos.  Você tem que pegar o valor e corrigir.

 

instalacoes-pan2007_copy_650As obras do Pan: Arena da Barra, Velódromo (será demolido para os Jogos de 2016)  e o Parque Aquático Maria Lenk

 

EE: Quando o senhor se referiu à contratação de estrangeiros para realizar a Olimpíada no Brasil, já que até então não tínhamos ninguém capacitado no país, essa contratação obedeceu aos critérios do Comitê Organizador de contratações e licitações? 

CN: As contratações seguem parâmetros do Departamento de RH (Recursos Humanos) e as vagas são disponibilizadas no site www.rio2016.com . 

EE: Nós acompanhamos as redes sociais do COB e do Rio 2016 e muitos comentários são de revolta, negativos. Como o COB e/ou Rio 2016 lidam com isso?

10_200CN: Qual é a rede social que tem elogios para tudo? O que mais tem é crítica, todas têm. É o que mais tem! Fica aqui um mês, aí eu quero ver (risos). Mas é a modernidade. Acho que a rede social faz parte de um mundo que é um mundo diferente. Aliás, tem uma pesquisa extraordinária que li, que saiu em inglês, sobre gerações. É a geração que vai até 29, 32 anos. Não se pode comparar o sujeito de 29, com um de 35, e olha que é próximo. Então, nós procuramos responder dentro daqueles que têm nível para fazer a crítica. Os que não têm nível vão ficar por aí mesmo, não tem jeito. Mas procuramos fazer da melhor maneira possível e vamos continuar fazendo, aumentando. Você vai sempre sofrer as críticas, que são justas e outras injustas. Sou advogado e, na minha profissão, temos um elevado número de frustrados. Todo mundo que vai para faculdade quer fazer júri, e júri não dá dinheiro, dá notoriedade. Se você pegar um crime, de público grande, você vai ter notoriedade, se sair na televisão mais ainda, você vai conquistar mais clientes. Então quantos que você acha que vão poder fazer júri no Rio de Janeiro? Que sejam bons, uns cinco. Que sejam medianos, uns 20?  Quantos se formam na faculdade? Então você vai ter gente frustrada. E gente frustrada começa a criticar decisão de juízes, decisões de um desembargador, de advogado, de defesa. Estou falando de uma área que nós convivemos. Aí que você vê absurdos, teses absurdas. Rasgam o código, não seguem o código. Então para que temos código? Da mesma maneira no esporte. Você não vai ter unanimidade para técnicos. Posso dizer que 80% dos técnicos da seleção brasileira deram certo, 20% não deram. Sei aonde esses técnicos erraram e não deviam ter errado. Eu corrigi! É isso. Não tinha, na época, rede social. Você trabalha com bom senso, então eu acho que isso tudo faz parte do jogo.

EE: Estamos chegando a 2016 e muitas mudanças no esporte devem vir. Não seria um bom momento para rever o estatuto do COB, contando com a participação ativa dos técnicos e atletas?

CN: O Estatuto do COB está sendo reformulado para atender às recentes alterações da Lei Pelé. Independentemente da lei, desde 2009 a participação de atletas nas atividades do COB vem se dando através da Comissão de Atletas do COB. Em relação aos técnicos, este relacionamento se dá através dos cursos da Academia Brasileira de Treinadores (ABT).

EE: Como o COB recebe recursos públicos, não seria prudente divulgar cargos e salários proporcionalmente ao recebimento destes recursos públicos?

CN: A forma de divulgação de dados referentes à Lei Agnelo/Piva pelo COB atende às orientações do Tribunal de Contas da União.

 

Atletas

 

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Com Nuzman e Ary Graça, seleção masculina de vôlei posa no pódio das Olimpíadas de Pequim, em 2008


EE: Como o Esporte Essencial trabalha diretamente com atletas, exclusivamente do Brasil, em todas as faixas etárias e níveis de profissionalismo, há um mal estar generalizado entre estes atletas, suas confederações e até mesmo com o COB.  A impressão é que algumas Confederações não têm regras claras e cada uma atua da forma que deseja, deixando os atletas inseguros, e com medo de enfrentar esta hierarquia e receberem punições. A meu ver, esse medo não combina com o esporte. Qual a sua opinião?

CN: A minha opinião é muito tranquila. Em 1984, foi o primeiro dinheiro que surgiu para ser dado aos medalhistas de prata para os Jogos Olímpicos. Chamei uma comissão de atletas, não falei com técnicos. Bernardinho, William e Montanaro. Acho que foram eles. Chamei e disse: quero que vocês me digam como é que esse dinheiro deve ser dividido. Como vocês gostariam? Eles estabeleceram um critério e eu levantei outro critério. Disse a eles o seguinte: como entra nisso o massagista, o fisioterapeuta, o médico? E, a partir daí, todas as decisões foram com eles, para o bem e para o mal. Um dia aconteceu de um atleta chegar machucado para ganhar diária. Isso foi em meados da década de 1990. Eu reuni a comissão de atletas e disse que acabaria com isso. Agora tem que ter atestado médico do clube. Se não tiver atestado médico o atleta não entra. Porque eu tive que pagar esse atleta por um ano sem ter tido culpa da contusão dele, ele se machucou no clube. E em um clube grande, não é clube pequeno. Não vou dar nomes porque na época eram outros dirigentes. Então, estou te falando de uma maneira que sempre lidei. Não é fácil. Acho que é difícil porque isso vai valer muito da experiência do relacionamento que eles devam ter com seus dirigentes, a maneira mais aberta, mais franca de colocar. Conheço voleibol mais do que ninguém. Nunca pedi pra nenhum atleta ser convocado, nem cortado, porque não quero misturar minha função com outra. Não sei se todo mundo é assim. Isso é uma questão mundial, não é uma questão local. É uma conquista da comunidade. Acho que a pessoa deve dizer se não gostou. Você não imagina que muita gente que trabalha comigo não me criticou em nenhum momento. Acho que tem um ponto que o atleta devia ver e isso foi uma preocupação. Sempre me adiantei na questão, por exemplo, de prêmios. Sempre combinei antes. Então, nunca tive problemas. Você nunca viu, na minha história de 21 anos, alguém dizer: “pô, o Nuzman não negociou um prêmio legal”. Vou dar o exemplo de um atleta que sou muito admirador e que no final da carreira, teve um problema comigo. Foi o Montanaro. E quando o Montanaro foi ser dirigente, me convidou para um almoço que o Banespa fez, em São Paulo. Fui e já falei para ele: "Montanaro, bem vindo ao outro lado da mesa. Agora você vai ver o que é bom". E depois ele me disse: “olha, você não sabe o que eu já me arrependi, o que eu entendi de como é difícil esse outro lado da mesa”. Acho isso e acho outra coisa também.

3_200Sei que não vou agradar muita gente, mas é uma opinião que tenho. Não espere ser um campeão mundial ou olímpico para criticar. Acho que um campeão mundial e olímpico tem que ter a grandeza de construir. Acho que esses campeões mundiais se tornam exemplos para gerações, eles serão o futuro de cada esporte, os futuros técnicos, dirigentes, e eles têm que procurar corrigir para ser o melhor, não que não tenham razão. Eu só estou dizendo a maneira como pode ser feito.

EE: Dinheiro para o esporte não falta e as receitas do COB crescem a cada ano. Contraditoriamente a isso, a maioria das Confederações, Federações e mesmo os atletas têm muitas dificuldades financeiras. Por que as condições gerais do esporte no Brasil ainda são muito pobres?

CN: Isso é um conjunto de elementos. A mentalidade que hoje tem o patrocinador, os recursos são para a entidade, ou para o atleta. E, logicamente, um vencedor, um campeão é melhor, porque ele é mais exposto. Você também não pode querer que um atleta que seja iniciante, que tenha perspectiva futura, não tenha dinheiro. Aí aparece o chamado “pai-trocínio”, o que é verdade, não tem outro jeito. Os grandes tenistas do mundo tiveram ajuda das famílias. Não é no Brasil, é no mundo inteiro. Senão, é um poço sem fundo. Não existe esse dinheiro todo e cada Confederação tem seus limites, limites que recebem da Lei. A nossa ajuda é limitada, como também são os recursos do Ministério do Esporte. Então é uma equação complexa. A Confederação pode dizer ao atleta que dá recurso para treinamento, mas não tem dinheiro para viagens, para hospedagem, para médico, para alimentação. Tem países que não dão o dinheiro todo para o atleta. Eles abrem uma conta para o atleta não sair comprando carros, fazer suas farras e depois ficar sem dinheiro, como conhecemos a história de muita gente.

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Doping


EE: Em entrevista ao Esporte Essencial, Eduardo De Rose afirmou que deveríamos construir um novo laboratório e capacitar profissionais para realizar exames anti doping. Qual é a real situação do LADETEC?

CN: Está sendo feito esse prédio pelo governo, é do governo, responsabilidade do governo. E o prédio está com uma obra muito adiantada e deve ficar pronto nesse primeiro semestre. Depois irão comprar os equipamentos e irão fazer.

EE: Qual a sua opinião sobre o doping no esporte?

CN: Horrível, zero. Tolerância zero. Zero, sem a menor chance. Zero! Tanto que na minha opinião a defesa de um caso de doping o atleta tem que fazer só. Eu não acho que ninguém pode ir lá e defender um doping, por mais que o atleta seja um atleta de ponta. Pior sendo um atleta de ponta.

EE: O que o COB faz para ajudar os atletas e inibir a venda de sustâncias proibidas para o alto rendimento?

Nós temos uma cartilha. Essa cartilha é distribuída a todas as Federações Estaduais, que distribuem aos seus atletas. O problema não está na cartilha, está na relação de confiança do atleta com aqueles que ele trabalha. E ele tem um risco. Esse é o risco. E esse não adianta cartilha, é questão do caráter, da consciência de cada um.

 

Em linhas gerais

 

EE: O senhor acredita piamente que todas as Confederações que votam pela sua eleição são a seu favor, ou elas também tem medo de represálias?

CN: A minha vida de dirigente é uma vida de aclamação permanente. Isso não quer dizer que eu não saiba que tem alguns que tem dificuldades, que são naturais. Procuramos explicar, faz parte da democracia. Como é uma minoria que tem, acho que o que eu tenho feito pelo esporte brasileiro, realmente, não teve, na história, ninguém que fizesse. Então me sinto envaidecido pelo apoio que eu tenho.

EE: Quem o senhor poderia considerar um opositor à sua altura, mesmo não estando dentro das normativas de eleição do COB?

CN: Eu adoraria conhecer (risos). 

EE: O Comitê Olímpico Nacional mais poderoso do mundo é o dos EUA (USOC), inclusive nas relações com o COI. Desde 1995, quando o senhor assumiu o COB, o USOC já teve seis presidentes. A alternância no poder não seria mais salutar para a democracia esportiva?

CN: Você sabe como é que os últimos 10 anos foram mudados os presidentes dos comitês dos Estados Unidos? Todos saíram mal. Então, não é uma questão de tempo. 

 EE: Quem é o seu nome preferido para a sua sucessão?

CN: O dia que tiver, as Confederações têm que saber primeiro.

nuzman-dilma-cob-texto_450EE: Como é, atualmente, a sua relação com a Presidência da República e o Ministério do Esporte? A presidente e o Ministro Aldo Rebelo apoiam integralmente as suas ações ou há um pedido de mudanças? 

CN: Muito boa. Temos uma relação ótima com o Ministério do Esporte e o apoio da Presidência da República é total.

EE: Quem é o Nuzman para ele mesmo?

CN: Depois de tudo que falei, eu ia deixar para sua conclusão. Queria ouvir a sua opinião (risos). Olha, é horrível falar de nós mesmos. O que posso dizer é o seguinte: todos os desafios que enfrentei, eu ganhei. Então, me sinto um vencedor. E a maior vitória foi para o esporte brasileiro ao trazer os Jogos Olímpicos para o Rio. Uma outra alegria que foi uma coisa imensurável, como dirigente, foi ser campeão olímpico. 

EE: Por que o esporte é essencial?

CN: O esporte é a grande razão de ser para a juventude. São as portas de educação, cidadania, correção, superação, de ser vencedor, de ter uma personalidade forte. E o esporte, hoje no mundo, ganhou um espaço muito grande, e espero que ele cresça cada vez mais. Ele tem uma influência na sociedade muito importante.

 

Nota da jornalista Fabiana Bentes:

Esta entrevista foi realizada em janeiro, antes do escândalo da CBV vir à tona. Lamentamos o fato que a grande "vitória" da gestão Nuzman seja exatamente esta confederação, que segundo ele, é um modelo de gestão para o esporte no país. O Brasil não tolera mais a corrupção em qualquer esfera, mas a corrupção no esporte ceifa carreiras de atletas de alto rendimento e desestimula os nossos jovens a buscarem o esporte como um meio de vida num país carente de oportunidades e de heróis esportivos.

Felizmente, nossos atletas não estão na rede de corrupção. Temos atletas que não tem confederações tão fortes e ainda sim, são campeões mundiais e olímpicos. Não trocaria medalhas e títulos pelo amadorismo de uma gestão que é tão prejudicial como a corrupção, apenas não gostaria que misturassem estas medalhas e títulos com a sujeira que alguns fazem no esporte e que mancham a história esportiva do Brasil.

Que o presidente do COB , Carlos Arthur Nuzman, colabore com o esclarecimento deste episódio para que possa continuar com o seu orgulho de ter a CBV como exemplo de gestão do esporte no país.

 

Leia no Blog: O fardo que é entrevistar Nuzman  

Fotos: Divulgação/COB


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