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Bruno Landgraf (Vela Adaptada)

30/09/2015
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Por Katryn Dias

A carreira no futebol parecia muito bem desenhada chegou à categoria profissional como goleiro do São Paulo. Mas o destino empurrou Bruno Landgraf para longe dos gramados e mais perto do mar. Após sofrer um acidente e ficar tetraplégico, Bruno encontrou na vela adaptada sua motivação para voltar ao esporte.

Com pouco tempo de treino e sem o equipamento adequado, Bruno participou do Mundial da modalidade e conquistou a classificação para os Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012. Já com a experiência de uma edição, o velejador agora se prepara para alcançar um resultado melhor na Paralimpíada do Rio, em 2016.

 

Esporte Essencial: Pode contar um pouquinho como foi seu início no futebol?

bruno-sao_paulo-ceni_ao_fundo-texto_431Bruno Landgraf: Eu jogava no time da minha cidade, em São Lourenço da Serra, interior de São Paulo. Aos 11 anos, fui fazer uma peneira em Itapecerica da Serra para tentar entrar no time do São Paulo. Eu fiz uma bateria de testes durante três meses, depois comecei a treinar com o time. No clube, passei por todas as categorias de base (dente de leite, infantil, juvenil e júnior) e, ao me destacar, fui convocado para as seleções sub-15, sub-17 e sub-20. Cheguei ao profissional em 2005. 

EE: Teve algum momento em que você realmente decidiu ser atleta profissional?

BL: Ser jogador profissional sempre foi o meu sonho. Eu comecei no São Paulo e fui cada vez treinando e trabalhando mais para conseguir. Foi melhor ainda realizar o sonho no meu time de coração! Eu procurei treinar e fui subindo aos pouquinhos, conquistando o meu espaço no São Paulo.

EE: Em 2003, você participou da conquista da Copa do Mundo de Futebol Sub-17. Como foi esse momento?

BL: Esse título na Finlândia foi muito importante para o grupo que tínhamos. No Sul-Americano anterior, nós não conseguimos ser campeões, então ficou um gostinho meio amargo. Nós saímos em segundo lugar, empatados com o terceiro na pontuação. Por isso, quando chegamos ao Mundial, muita gente não acreditava, mas o grupo era muito bom. Então, todos nós realizamos ali o sonho de ser campeão mundial. Ainda tínhamos um longo caminho até uma Copa do Mundo no profissional, mas conseguimos dar o primeiro passo com vitória em 2003. Nesse torneio, eu fui titular. Mais tarde, na Copa do Mundo Sub-20, fui reserva e o Renan, que hoje está no Goiás, era o goleiro titular, e o Diego Alves era o terceiro.

 

Os planos mudam

 

EE: Em 2006, um acidente tirou o sonho de seguir no futebol. Como você reagiu?

bruno_landgraf-pier-texto_448BL: No dia 11 de agosto aconteceu o acidente e eu perdi dois amigos. O Weverson [Maldonado], que também era goleiro do São Paulo, e a Nathália [Manfrim], que era jogadora de vôlei, faleceram. A Paula [Carbonari] e a Clarisse tiveram alguns ferimentos, mas sobreviveram. A Clarisse [Benício], inclusive, estava jogando no Pinheiros, recentemente. 

Eu não lembro muito do momento do acidente, só o que me falaram. Fiquei oito meses no hospital, mas não lembro do tempo em que estive na UTI e na CTI, durante os dois primeiros meses. Depois desse período, começo a ter lembranças. Fiquei três meses sem comer normalmente, apenas por sonda; não falava, só fazia alguns sinais com a boca, porque não tinha movimento nenhum. Então, esse período foi muito complicado porque não consiga me comunicar com as pessoas que falavam comigo. Passados uns quatro meses, já comecei a comer normalmente e coloquei uma válvula para poder falar. Eu falava com minha dificuldade, era muito cansativo, porque também tive uma lesão no pulmão. Mas aos pouquinhos fui melhorando. Quando saí do hospital, ainda não tinha muitos movimentos. Mexia um pouco o braço, mas ainda nem ficava sentado. Tive que fazer adaptação em uma cadeira, porque sou muito grande e não tinha um modelo que pudesse usar. Demorou até a cadeira com as medidas certas chegar para eu poder ficar sentado e me locomover. Em casa, intensifiquei a fisioterapia e comecei a reabilitação.

EE: Nessa época, você já conhecia o esporte paralímpico?

BL: Eu conhecia algumas modalidades por conta dos medalhistas. Sempre gostei de esportes, então acompanhava os noticiários. Vi algumas reportagens sobre o Antônio Tenório do judô e também o Daniel Dias, que é um dos maiores medalhistas paralímpicos. Eu conhecia, mas pouco. 

olho2_200_04EE: Como o esporte apareceu novamente na sua vida? O esporte ajudou na sua reabilitação?

BL: Durante a reabilitação, comecei a fazer natação. Não para competir, mas para poder ganhar movimento e fortalecer os músculos. Eu estava fazendo fisioterapia em uma faculdade em São Paulo. Até que a Berenice, uma das fisioterapeutas que tem um projeto de vela na Represa do Guarapiranga, ligou e pediu indicação de cadeirantes que gostariam de conhecer a vela. Eu me interessei e fui. Achei muito bacana o esporte. Nunca tinha entrado em um barco para velejar, nem mesmo antes do acidente. Depois demorei de seis a sete meses para voltar, porque precisamos adaptar uma cadeira ao barco. A princípio, comecei a praticar mais como reabilitação do que para competir mesmo. 

 

A primeira vez

 

bruno-barco-renato-cordeiro-texto_400EE: Quando você percebeu que a vela poderia te levar de volta ao esporte profissional?

BL: Foi quando a equipe foi para a Paralimpíada da China, em 2008, e o nosso técnico na época, Vitor Hugo, voltou contando que existia a classe Skud. Ele me disse que, arranjando uma menina – o barco precisa de uma mulher e um homem –, eu tinha chance. Então, convidei a Elaine, que na época fazia fisioterapia comigo na faculdade. Ela foi conhecer, gostou, e nós começamos a treinar para competição. De 2010 para 2011, nós participamos do nosso primeiro Mundial, na Inglaterra, e conseguimos a vaga inédita para as Paralimpíadas de Londres.

EE: Você participou das Paralimpíadas de Londres, mas sua preparação foi comprometida pela falta do barco correto. Como foi isso?

olho3_200_06BL: Como a Confederação não tinha equipe, nós começamos. Treinávamos em São Paulo num barco adaptado, que não era de competição. Tentamos montar o mais parecido com o barco oficial, mas continuou tendo muitos detalhes diferentes. Como preparação, nós fomos para alguns Mundiais. A primeira vez que entramos no barco de competição foi justamente no Mundial que valia vaga para a Paralimpíada. Quando chegamos, ninguém acreditava em nosso potencial, mas nós sabíamos que tínhamos chance de classificar. Tinham seis países na disputa para cinco vagas. Achavam que nós ficaríamos com a quinta vaga, mas conseguimos melhorar um pouco e pegar a quarta. Para nós, foi um ganho muito grande. E o trabalho que fizemos, mesmo não tendo estrutura, foi muito bom. Para a Paralimpíada, mesmo classificados, ainda não tinha o barco no Brasil. Esse barco só ficou pronto em maio de 2012 e foi para a Holanda. Como a Paralimpíada era em Londres, quem alocou nosso barco foi um holandês. Então, nós fomos em alguns campeonatos e, depois, em maio, três meses antes da Paralimpíada, fomos para a Holanda para arrumar o barco. Nesses seis meses de 2012, o pessoal continuou treinando, e nós só tivemos um contato de duas semanas com o barco. Então, a preparação para os Jogos de Londres não foi adequada, por não ter o material de competição e o treinamento. Também não tivemos tempo de participar de outros campeonatos para adquirir experiência.

EE: Essa falta do material foi por não ter apoio, patrocínio?

BL: Na verdade, o problema foi mais logístico. Todos diziam que era muito complicado trazer o barco para o Brasil e depois mandar para Londres. Então, seria mais fácil o barco ir direto para a Europa e ficar por lá, porque o tempo era muito curto. Quando se compra um barco desse, não é em um, dois meses que chega ao Brasil. Tem toda uma burocracia para a encomenda. Então, demoraria muito. Depois da Paralimpíada, ainda fiquei dois anos sem treinar com o barco, porque ainda não tinha no Brasil. 

 

Rumo a 2016

 

EE: Houve alguma mudança para a preparação para os Jogos de 2016?

olho5_200_04BL: Em Londres, foi feito um projeto em que a Caixa Loterias patrocinou os barcos aqui do Centro de Alto Rendimento do Rio, gerido pela Confederação Brasileira de Vela Adaptada (CBVA) no clube Charitas de Niterói. Hoje temos três barcos da categoria Skud 18, quatro Sondar (para três pessoas) e mais quatro da classe 2.4 (individual). Então, essa preparação para 2016 já vai ser um pouco melhor. Devíamos estar treinando desde 2012 com o barco de competição para termos um ciclo de quatro anos. Nós começamos a treinar um pouco atrasados, mas é muito melhor conseguir treinar dois anos, pelo menos. Nesse último ano que conseguimos treinar, já tivemos uma boa melhora, evoluindo a cada dia. Também trocamos de técnico. Hoje tenho outra parceira, porque a Elaine ficou grávida e está cuidando da nenêzinha dela. Eu treino com a Marinalva, que também está buscando aprender, evoluindo a cada dia.

EE: Tem alguma instituição que te apoie hoje?

BL: Sim, o Time São Paulo, que é uma parceria entre o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), o governo de São Paulo e a secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Em 2011, montaram o projeto do Time São Paulo, que na época tinha 25 atletas paralímpicos com chance de medalha e também pegaram a modalidade da vela, que conseguiu classificar para Londres. Para a preparação de 2016, já são 36 atletas com mais 6 atletas guias. O Time São Paulo cresceu muito. 

EE: Você se mudou recentemente para Niteroi por conta da preparação para 2016?

BL: Sim. Nós tivemos uma conversa com o Time São Paulo. Foi muito bom para nós que eles apoiaram esse sonho nosso de vir para o Rio para poder melhorar o treinamento. Em São Paulo, nós treinávamos três vezes na semana e folgávamos um final de semana, o que dava, no mês, cerca de 10 dias. Hoje nós conseguimos treinar cinco vezes na semana, ou seja, mais de 20 dias no mês e com o material adequado de competição.

 

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Bruno participa da Regata Rei Olav, no Rio de Janeiro

 

EE: Como estão os treinamentos? Velejar diariamente na raia olímpica é uma vantagem ou na hora da competição isso não faz diferença?

olho7_200_05BL: Nós pretendemos melhorar o que não tivemos nesses dois anos perdidos do ciclo. Agora temos o barco de competição e um novo treinador, que já veleja há mais de 40 anos e está conhecendo muito o barco (o Skud é novo no Brasil). Além disso, o Pedro Paulo, o PP, conhece bastante a baía de Guanabara. Treinando todos os dias aqui, espero chegar aos Jogos com uma vantagem de conhecer tudo. É muito complicado velejar na baía, tanto pelos ventos quanto pelas correntes. Cada dia é diferente. Por isso, estamos procurando ao máximo tirar proveito desse conhecimento, além de adquirir total controle do barco. Mas já tem muitos atletas estrangeiros treinando aqui. Essa semana nós estávamos com duas equipes inglesas, que são as melhores. Também vêm equipes canadenses e australianos. Nessa preparação, estamos vendo uma evolução bacana. Nós estamos procurando melhorar ao máximo.

 

O Rio olímpico e paralímpico

 

olho9_200_01EE: Qual a sua expectativa para a realização dos Jogos? Acha que o Brasil vai dar conta de sediar um megaevento como esse?

BL: Eu acredito que sim. O pessoal da organização está tentando fazer o melhor trabalho possível. Nós velejadores ficamos um pouco preocupados com a baía de Guanabara, por causa do lixo. Mas acho que, na época dos Jogos, tanto Olímpico quanto Paralímpico, o pessoal vai achar uma forma de não ter tanto lixo quanto está tendo agora. Já diminuiu bastante a sujeira da Baía de Guanabara, principalmente aquele lixo pesado, mas ainda tem muito saco plástico e pedaço de madeira. Então, eles precisam procurar limpar ao máximo o local das raias para que nenhum velejador saia prejudicado por causa de um saco de lixo ou um pedaço de madeira que possa danificar o barco.

 

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Bruno e Marinalva treinam no barco adaptado de competição

 

EE: Na sua opinião, o Rio de Janeiro é uma cidade adaptada para receber tantos atletas e turistas com deficiência?

olho10_200_01BL: Eu andei pouco pela cidade do Rio. Nós ficamos mais em Niterói. Como estamos focados no treinamento, eu só vou de casa para o clube. Mas tenho amigos cadeirantes e pessoas com deficiência que andaram pelo Rio e falaram que a cidade está bem adaptada. Ainda tem que melhorar muito, claro. São poucas as acomodações adaptadas, por exemplo. Os hotéis e pousadas acham que só colocar uma barra no banheiro já é adaptar um quarto. Não é assim, tem toda uma estrutura, como rampas, elevadores, cadeira de banho. Ainda tem muita gente que desconhece. Mas acredito que o pessoal da organização e do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) está passando todas as dicas para que a estrutura seja melhorada. Eu converso com os atletas que vêm de fora e eles não têm muito o que reclamar. Eles já passearam em vários lugares do Rio que são cartões-postais e acharam bem adaptados. 

olho11_200_02Eu acredito que a questão da acessibilidade está melhorando, porque as pessoas com deficiência estão aparecendo mais, entrando no dia a dia. Antes não tinham muitos locais adaptados porque o pessoal desconhecida. A Paralimpíada está abrindo a mente de muitos brasileiros que pensavam que a pessoa com deficiência era “coitadinha”. Então, estamos fazendo de tudo para que saia esse estigma de “coitadinho” e que todos vejam as pessoas com deficiência como normais, que fazem tudo. Claro que com algumas adaptações que as pessoas sem deficiência não precisam.

 

 

 

Inspiração e opinião

 

olho13_200EE: Tem algum atleta em quem você se inspire?

BL: No futebol, gosto muito do Rogério Ceni. Tive oportunidade de trabalhar com ele e hoje o tenho como amigo. Outras pessoas que também admiro muito são Lars Grael, que tem uma história muito bacana, o Torben, e Robert Scheidt da vela. Agora, as meninas Martine e Kahena também estão fazendo um trabalho muito bom na modalidade. No atletismo, gosto muito da velocista Terezinha Guilhermina e do Guilherme Santana, o guia dela. Esses eu já tive contato, mas temos vários outros atletas paralímpicos que servem de inspiração para qualquer pessoa. Como o pessoal da canoagem, o Luis e o Fernando [Fernandes]. Todos esses são inspiração para nós da vela, porque essa é uma modalidade paralímpica pouco conhecida – a olímpica já é conhecida por conta das várias medalhas. Muita gente acha que a vela é um esporte perigoso ou que uma pessoa com deficiência não pode entrar num barco e velejar. Mas a vela é um dos esportes mais inclusivos, porque qualquer deficiente pode praticar. Alguns esportes só podem deficientes visuais, outros só cadeirantes, na vela não é assim, inclui o máximo de deficiências possível. 

olho14_200EE: Que mensagem você deixaria para os fãs de esporte que estão lendo?

BL: Espero que o público possa acompanhar e prestigiar tanto a Olimpíada quanto a Paralimpíada. O que eles vão assistir aqui no Brasil vai emocionar muito e vão perder aquele estigma de deficiente “coitadinho”. Vamos procurar passar a mensagem de que ficamos com alguma deficiência por um acidente ou má formação, mas a vida continua. Nós continuamos lutando e buscando nossos objetivos para poder representar da melhor forma o nosso país. Assim como eu procurava representar no futebol, hoje trabalho e treino para poder representar como um atleta da vela.

EE: Qual a sua posição sobre o doping no esporte?

BL: Eu acho muito ruim. A pessoa que usa de alguma substância proibida para ter benefício. A pessoa que está trabalhando dia a dia e não usa nada às vezes chega em uma competição e o cara que usou foi beneficiado. E aí so vai descobrir isso mais tarde ou nem fica sabendo. Acho o doping muito errado. Aconselho a pessoa a trabalhar e conseguir os resultados pelos próprios esforços, sem usar substancias que não são legais para a saúde.

olho15_200EE: Para você, o esporte é essencial? Por quê?

BL: Para mim, o esporte sempre foi essencial, o gosto vem desde pequeno. Pratiquei judô e futebol na infância. Depois do acidente, a vela foi o que me ajudou – e me ajuda até hoje – a recuperar meus movimentos, a buscar sempre melhorar. Aquela sensação de poder competir é ótima! Eu chegava para treinar na vela e percebia dificuldades, movimentos em que podia melhorar. Foram desafios que tive que enfrentar para poder melhorar na vela que me fizeram melhorar na minha recuperação. Então, o esporte me ajudou a recuperar os movimentos e está me ajudando a crescer como pessoa a cada dia mais.

 

> Bruno Landgraf é atleta do Time Sou do Esporte, clique aqui para patrociná-lo

 

Fotos: Arquivo pessoal de Bruno Landgraf


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