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Bruno Cunha (Judô)

02/06/2012
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Cair, levantar e seguir em frente


Por Manoela Telles e Thyago Mathias

“A primeira médica nefrologista que viu meus exames disse, logo de cara, que eu teria que fazer um transplante e falou para eu esquecer o judô. Foi dessa forma drástica que recebi a notícia. Apesar da trajetória vitoriosa, os exames estavam horríveis. Os meus rins estavam parando de funcionar. Tinham apenas 10% da capacidade. Eu teria de fazer hemodiálise imediatamente e nunca mais poderia treinar. Não havia perspectiva. Todas as metas desapareceram de minha vida... Depois de quatro meses de espera, o transplante foi minha salvação.”

Campeão brasileiro e sul-americano de judô, o alagoano Bruno Cunha, 21 anos, descobriu sofrer uma deficiência renal, logo após entrar para a Seleção Brasileira e ajudá-la a conquistar o bronze na Copa do Mundo de São Paulo, em junho de 2011.

Depois de ter o fim de sua carreira prenunciado por uma médica, Bruno passou pelo transplante de um rim doado pelo pai e, aos poucos, tem respondido bem a uma rotina de treinamentos que já lhe permite sonhar com os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. Atleta do Flamengo, já foi autorizado pelos médicos a voltar aos treinos, a partir de junho, e a se reintegrar à Confederação Brasileira de Judô.

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Memória Olímpica: Como começou sua trajetória no judô? Antes de optar por ele, chegou a praticar outro esporte?

Bruno Cunha: Eu comecei a fazer judô aos cinco anos de idade, por brincadeira. Era muito ativo, tinha muita energia e fui diagnosticado como hiperativo. Por indicação do pediatra, minha mãe me levou para o judô. Fui uma criança esportista, fiz todos os esportes que podia: natação, futebol, basquete, handebol... mas o judô sempre foi minha primeira opção. À medida que o tempo foi passando, o esporte começou a ficar sério em minha vida. Aos 12 anos, passei a ser mais cobrado nos treinos e nos resultados. Então eu me federei e comecei a participar de competições.

MO: Foi a decisão de profissionalizar-se como esportista que levou você de Alagoas para o Rio de Janeiro?

BC: Sempre tive o objetivo de vir ao Rio para estudar e aperfeiçoar minha técnica, evoluir no esporte. Infelizmente, alguns estados do Nordeste ainda não desenvolveram infraestrutura para os esportes. Chegou um momento em que eu não tinha mais nível competitivo para alcançar. Aos 18 anos, já tinha conquistado todos os títulos do estado. Então, decidir vir ao Rio, por conta própria. Já estava aqui, quando conquistei o Sul-Americano. Um ano depois, eu me tornei campeão brasileiro e, em pouco tempo, entrei para a Seleção Brasileira principal. Foi tudo muito rápido. Evoluí rapidamente em apenas dois anos.

MO: Com a sua idade, você tem conseguido conciliar a rotina de competições e treinamentos com estudos?

BC: Depois que vim pro Rio, comecei a estudar Direito e me filiei à equipe esportiva da universidade, aliando o curso de graduação ao judô. Esporte e estudo são duas linhas que caminham em conjunto. O esporte é uma fase temporária. É preciso se preparar para a vida, fazer o famoso ‘plano B’. Enquanto se é jovem, você tem saúde e pode se dedicar ao esporte, mas vai chegar um tempo em que o seu corpo não vai permitir mais e é preciso ter um meio de sobrevivência. Isso só será possível por meio do estudo. Já estava na universidade quando me tornei campeão Sul-Americano e tive total apoio da instituição.

MO: Logo após essa conquista e a de outros títulos, quando estava no auge, você descobriu que tinha insuficiência renal. O que aconteceu?

BC: Fui convocado para a Copa do Mundo de Salvador e conquistei a medalha de bronze. Depois, fui convocado para o Grand Slam e para a Copa do Mundo de São Paulo. Lutei o Grand Slam, não senti nada. Estava bem de saúde, treinando forte, como sempre fiz. Em São Paulo, lutei e fui descansar no hotel. Fui ao banheiro e percebi que estava urinando sangue. Fiquei desesperado, sem saber o que fazer. Tentei falar com minha mãe e já era tarde, não consegui. Então liguei para o para o meu amigo João (o judoca João Gabriel Schlittler) e ele me sugeriu ligar para a técnica da seleção, Rosicléia Campos. Como estávamos no mesmo hotel, ela foi, com o médico, me auxiliar. Ele me examinou, perguntou se havia dor, febre, mal estar. Mas eu não sentia nada. Ele achou estranho, disse que poderia ser pedra nos rins.  Pediu para eu beber bastante água e descansar e disse que procurasse um especialista. Segui as orientações e, depois, quando fui ao banheiro, já não tinha mais sangue, mas continuei preocupado.

MO: Passado o susto inicial, como você reagiu?

BC: Por ser atleta, cuido muito de minha saúde. Faço dieta, evito refrigerantes, alimentos gordurosos e salgados. Algo estava estranho: eu estava sangrando por dentro! Procurei um urologista e fiz exames de sangue e de imagem. O exame de imagem foi traumatizante. O radiologista me perguntou sobre histórico de doença renal. Aparentava estar preocupado com o que estava vendo e imediatamente chamou o médico. Eu percebi que havia algo errado e eles ficaram assustados em me falar. Foi um momento de tensão. A primeira médica nefrologista que viu meus exames se desesperou. Viu os exames e disse, logo de cara, que eu teria que fazer um transplante e falou para eu esquecer o judô. Foi dessa forma drástica que recebi a notícia. Apesar da trajetória vitoriosa, os exames estavam horríveis. Os meus rins estavam parando de funcionar. Tinham apenas 10% da capacidade. Eu teria de fazer hemodiálise imediatamente e nunca mais poderia treinar. Ela me aconselhou a congelar sêmen porque eu poderia ficar estéril. Eu perdi o chão. Tinha 20 anos e, de repente, não tinha mais nada: ia ficar estéril, parar o judô... Não havia perspectiva. Todas as metas desapareceram da minha vida.

MO: Com tanta informação e tantas notícias ruins, de onde surgiram forças e esperanças pra continuar, literalmente, lutando?

BC: Meu primeiro medo foi morrer. Depois, pensei no esporte. Eu tinha acabado de entrar na Seleção Brasileira, alcançado meu sonho, mas meu corpo não ia me permitir seguir. Então, surgiu um anjo na minha vida. Minha prima, que é médica, veio conversar comigo, me acalmou, disse que tudo ia ficar bem, que ia me levar até um colega, que ela tinha total confiança de que tudo daria certo e que eu não perdesse a esperança. Aí, ela me levou até o Dr. Eduardo Rocha e a equipe dele. Na primeira conversa, ele já tinha pesquisado previamente sobre minha vida, assistiu aos meus vídeos, às competições. Ele me disse que eu lutava desde pequeno e aquela seria mais uma luta. O mais importante: disse que era possível voltar ao esporte.

MO: A partir daí, o que mudou em sua rotina? Como foi possível voltar ao esporte e lidar com esta situação?

BC: O transplante era a única solução para resolver o problema. Para controlar as taxas, sem passar pela diálise, que prejudicaria minha volta ao judô, porque destruiria minhas veias, tive que fazer uma dieta restritiva por quatro meses, em preparação para a cirurgia. Eu resolvi encarar e fazer todo esforço que fosse preciso. Isso tornaria minha volta ao judô possível. Antes disso tudo, eu comia muito, mais de 3000 calorias por dia, não tinha limites. Ainda assim, tinha dificuldade para ganhar peso. Mal sabia que era por causa dos meus rins. O médico explicou que a dieta seria difícil, porque meu metabolismo de atleta pedia uma alimentação especial. Na primeira semana, eu perdi quatro quilos. Para um atleta, a musculatura é sinal de evolução. Eu estava vendo tudo ir embora. Antes, eu acordava às 5h para fazer musculação. Treinava três vezes ao dia. Com a dieta, perdi 13 kg. Passei a fazer atividade física limitada. Liberado pelo médico, eu fazia uma corrida leve três vezes por semana. O transplante em si foi um procedimento extremamente seguro. O difícil, normalmente, é encontrar um doador. Minha mãe ficou triste quando descobriu que não tinha um tipo sanguíneo compatível. Quando meu pai abriu o exame dele, ainda no consultório, virou pra mim com os olhos cheios de lágrimas e disse “filho, meu rim é teu”. Depois de quatro meses de espera, foi minha salvação. A cirurgia correu muito bem. Foi feita uma técnica diferente e o rim ficou protegido pela musculatura do abdômen. Por causa disso, eu senti muitas dores no pós-operatório. O momento da recuperação é quando você cai na realidade e se dá conta de que fez um transplante. Passei a me questionar, se eu voltaria ao judô. Senti o peso da cirurgia, mas, com o tempo, eu fui me recuperando.

MO: E o que mudou em sua vida pós-transplante?

BC: Passei a alertar as pessoas sobre a importância de fazer exame de sangue e dosar a creatinina, não somente os atletas, mas a população em geral. A maioria das pessoas se preocupa somente com a glicose, por causa do diabetes e com o colesterol, por causa do infarto. Creatinina alta é pior do que colesterol, é sinal de que o rim está muito ruim. E o rim é um órgão muito importante, desempenha várias funções essenciais no organismo. Eu também recebi muito apoio de pessoas transplantadas. O estigma da pessoa transplantada é o de uma pessoa doente, mas é justamente o contrário: com o transplante, a pessoa volta a ter saúde, tem o órgão de volta. Tudo o que ela não podia fazer antes, pode voltar a fazer. Eu penso que tinha que passar por isso. Só depois que lutei pela Seleção Brasileira foi que o problema apareceu. Então, se eu não tivesse chegado aonde cheguei, talvez não pudesse ajudar outras pessoas, informando, participando de campanhas.

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MO: Como está sua rotina de treinamento, após a cirurgia?

BC: À medida que os exames do pós-operatório vão dando certo, as coisas vão sendo liberadas clinicamente. Passado um mês e meio, eu já estava correndo na piscina, me movimentando. Fiz isso durante um mês. Depois, comecei a fazer musculação leve e, no terceiro mês, pilates, para ganhar firmeza. Estou sendo liberado para recondicionar meu corpo para os treinos. Em junho, se Deus quiser, vou poder colocar o quimono e voltar a treinar o judô.

MO: Quais são as suas metas a partir do retorno aos treinos de judô?

BC: Minha primeira meta é ter saúde sempre. Nada é possível sem saúde. Depois, eu quero voltar a estudar e seguir treinando. Estou sentindo falta, porque faço isso desde os cinco anos de idade. Dentro do judô, minha meta é voltar a competir. A esperança dentro de mim é muito grande. Espero ser exemplo de superação depois da experiência por que passei. Muitas pessoas desistem ou sofrem por coisas pequenas. O lema do judô é cair e levantar. Na vida, a gente pode até cair, mas, como no judô, a gente tem que levantar. É preciso seguir em frente, sem se entregar.

MO: Que tipo de alertas em relação à rotina de treinamentos, aos cuidados com o corpo, a alimentação, entre outros, esta experiência lhe deixou?

BC: Saúde é primordial. Os clubes devem ter consciência de que os atletas devem passar por exames, por, no mínimo, uma vez ao ano. A situação dos esportes olímpicos é precária. Não há tanta cobrança da mídia, da sociedade. Deveria haver um estatuto para garantir a realização de exames de check up, avaliações regulares do estado geral do atleta. Os clubes deveriam proporcionar a todos os atletas uma comissão médica, para avaliar as condições básicas de saúde, antes de qualquer início de treinamento.

MO: Como alguém que, por conta do transplante, acaba é obrigado a tomar muitos medicamentos, como você avalia a questão do doping?

BC: Usar substâncias para ganhar uma competição é trapacear. O atleta não vai conquistar a medalha por mérito próprio. Nesse caso, eu penso que há ausência de valores morais, falta caráter. Mas, num caso em que fazer uso de uma medicação seja necessário para a saúde do atleta, se ele precisa compensar alguma necessidade, como uma infecção alimentar, uma dor de cabeça, sob supervisão médica, não vejo problema. Porque ele não está fazendo uso de medicamento para ganhar de alguém ou ter mais rendimento. Desde que seja avaliado por uma comissão médica, é outra história, não um problema.

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Fotos: Bruno Cunha / Arquivo pessoal


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