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Artur Ricardo (Idealizador do Tênis Solidário)

16/06/2015
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Por Fernando Hawad

A diferença entre sonho e realidade pode se chamar força de vontade. Foi assim que o professor Artur Ricardo deu início a um projeto social diferenciado. Formado em Educação Física, o carioca de 44 anos quebrou o paradigma de que o tênis é um esporte de elite. Há mais de quatro anos ele dá aulas gratuitas para crianças em Pilares, zona norte do Rio de Janeiro. É o Tênis Solidário, projeto que vai muito além das quadras, raquetes e bolinhas. O objetivo maior é formar cidadãos.

Artur enfrenta as dificuldades bem conhecidas por aqueles que tentam fazer algo pelo esporte no Brasil, como falta de estrutura e de apoio. Mas não tem bola na rede que o desanime. E dupla falta, só se o aluno estiver com notas baixas na escola.    

 

artur-texto_430Esporte Essencial: Conta como surgiu a ideia do projeto?

Artur Ricardo: Eu sou formado em Educação Física e sempre quis aprender a jogar tênis. Não tive aula na faculdade. Trabalhei na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) com o futebol feminino, trabalhei em projeto social no Governo do Estado e vi muitas falhas, especialmente na CBF. Eu moro no bairro de Pilares e sempre quis ter um projeto com o meu perfil. A princípio tinha pensado em futebol, mas vi que já tinha em tudo quanto é lugar. Aí eu lembrei do golfe, em Japeri, do badminton em Jacarepaguá, e pensei: por que não o tênis? Como não sabia jogar e não tive aula na faculdade, fiz um estágio de três meses no Fluminense com o professor Gilberto Macaio. Fiz o estágio e fui atrás da quadra aqui no bairro. Era uma quadra de futsal, debaixo do viaduto de Pilares, e nós adaptamos para o tênis. Isso já tem quase cinco anos. Começamos em janeiro de 2011 e está sendo um sucesso até agora.

01_200_30EE: Você teve alguma ajuda para poder tocar o projeto no começo?

AR: Sim. O clube da Associação Atlética Brasil Novo que acreditou, cedeu o espaço da quadra sem cobrar nada, e o professor Gilberto, do Fluminense, que me ensinou a jogar, a ministrar aulas e me doou material. Hoje temos o apoio de algumas empresas. Não aceitamos verba pública. Só apoio da iniciativa privada mesmo. Tem uma empresa de Engenharia que nos doa uma verba por mês, tem a Schott, uma multinacional alemã, que nos doa o lanche. Hoje o projeto está um pouco mais estruturado, mas ainda falta reformar a quadra e fazer algumas coisas.

02_200_32EE: Há quantos alunos no projeto?

AR: Há uma lista de espera com mais de cem e hoje nós temos cerca de 35 alunos. No início tinha mais ou menos isso também, mas era mais difícil atrair gente. As pessoas ficavam desconfiadas. Tênis tem fama de ser um esporte caro e sempre falávamos que era tudo de graça. Além do material de jogo, tem lanche, médico, dentista uma vez por ano, noções básicas de etiqueta, inglês e português, como não ser corrupto no Brasil. É um projeto diferenciado. 

EE: Normalmente, para praticar o tênis, o aluno precisa ir a um clube e pagar caro por uma aula. Isso até gera o preconceito de que o tênis é um esporte elitista, que só rico pode jogar. Mas o Tênis Solidário prova que qualquer um pode praticar. Como vocês trabalham para mudar essa mentalidade?

04_200_29AR: Exatamente. No início, fiquei até preocupado se ia conseguir. Quando trabalhei no Fluminense, via as pessoas praticando e era gente de alto poder aquisitivo. Sempre ouvi esse mito de que é caro. Mas a nossa ideia é justamente na contramão disso. Tênis não é caro. O que é caro hoje é o professor. Por não ter na faculdade de Educação Física, consequentemente não há nas escolas. Os professores de hoje, os poucos que existem, vão para os condomínios, vão para os clubes e cobram uma hora-aula altíssima. Aqui, ao contrário, a nossa ideia é popularizar. Temos também uma escolinha à noite, para garotos de escola particular e adultos, que é tipo um projeto social dois. Cobramos 80 reais por mês e ainda damos a raquete. Com 80 reais, você não paga nem uma aula. Nossa ideia é popularizar o tênis. A raquete é mais barata que uma chuteira de futebol. Tem raquete por cem reais em supermercado. Uma chuteira de marca é mais que isso. Queremos mostrar que o tênis é viável.

EE: Tem outros professores trabalhando com você?

AR: No início, eu estava sozinho. Hoje tem um monitor meu, que tem 16 para 17 anos, e tem os voluntários. Por exemplo, tem uma pessoa da Barra que vem duas vezes por semana para treinar o nosso garoto que compete aqui. Todas as pessoas envolvidas são voluntárias. Esse meu monitor, quando terminar o Ensino Médio e ingressar em uma faculdade de Educação Física, certamente vai ser o meu sucessor aqui. 

07_200_26EE: O projeto oferece muito mais coisa, não apenas aulas de tênis. Queria que você falasse dessa parte que vai além das quadras.

AR: A nossa preocupação, antes de tudo, é a inclusão social. Aqui tem médico, dentista, tem passeios e aulas de noções básicas. No final do ano tem o prêmio “Aluno Nota Dez”. O aluno que tiver mais notas dez no boletim, do quinto ao nono ano do Ensino Fundamental, vai ganhar uma aula de stand up paddle e um almoço em Ipanema. Os alunos também recebem ovos de Páscoa e doces de Cosme e Damião. Além disso, promovemos ações sobre o meio ambiente. Ou seja, não é só o tênis em si.

EE: A estrutura melhorou de quatro anos para agora?

09_200_12AR: Olha, melhorou sim. O uniforme e o lanche já tínhamos nos primeiros meses. Mas hoje temos muitas raquetes e recebemos bolas. O que precisa mesmo é reformar a quadra, que é precária, tem muita rachadura. Nós já temos um garoto, de oito anos, que compete, o Cauã Paulino. Para ele, sim, falta uma estrutura, um local melhor para treinamento. Nossa ideia é encaminhá-lo para a Alemanha. Agora temos o apoio de uma academia da Alemanha, que está doando material. Tem a Schott, que é uma empresa que doa o lanche, e estamos também começando a iniciar uma parceria com o Consulado Alemão. Por que a Alemanha? Porque eu conheço o país, estive lá duas vezes quando trabalhava para a CBF. Na Alemanha, o esporte é muito levado a sério. Se conseguirmos, daqui a três ou quatro anos, encaminhar o Cauã para lá e reformar a quadra, os objetivos do projeto serão alcançados.  

EE: Existe alguém que possa viabilizar a reforma da quadra?

AR: Estamos tentando viabilizar com alguns parceiros, quem sabe o Consulado Alemão. Tem duas empresas alemãs nos apoiando. Nossa ideia é trazer a delegação alemã de tênis para conhecer o projeto nos Jogos Olímpicos do ano que vem, já que a nossa quadra fica a uns 20 minutos da Barra, onde serão realizados os jogos de tênis. A reforma não é muito cara. Acho que por 30, 40 mil a gente consegue reformar.

 

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Alunos do Tênis Solitário posam para foto na quadra onde treinam

 

 

11_200_06EE: Por que é tão difícil trabalhar com o esporte no Brasil?

AR: Eu fui atleta de atletismo, nos anos 80 e 90, e naquela época já tinha dificuldade para conseguir patrocínio. O tempo passou, faz quase 20 anos que parei de correr, e continua a mesma coisa. Eu não consigo entender. Quando criei o projeto social, queria fazer algo diferente. Eu trabalhei no Governo do Estado e vi muitos erros. Por isso que a nossa vontade é encaminhar o Cauã para fora do país. Porque se ele ficar aqui, vai ser mais um. E talvez o nosso projeto seja um dos poucos no Brasil a não aceitar verba pública. Não aceitamos nem estatal, só verba da iniciativa privada. É um projeto que tem muita visibilidade na imprensa em um local sem muita tradição no tênis, que é Pilares, um bairro com cerca de 30 mil habitantes. É um projeto muito sério, totalmente transparente. Prestamos conta de tudo, como o material que chega e pequenas verbas que são doadas. 

EE: Você tem apoio das instituições de tênis?

13_200_06AR: Nunca recebi a Confederação Brasileira de Tênis (CBT) aqui. Da Federação, já veio um funcionário, que fazia parte da antiga gestão, para doar material. Dessa gestão atual nunca veio ninguém conhecer o projeto. Então, a temos que pegar ajuda de fora. Fechei uma parceria com uma academia de tênis da Alemanha e não consigo fechar aqui. É complicado.

EE: Você acredita que os Jogos Olímpicos do Rio podem deixar algum legado?

AR: O legado dos Jogos Olímpicos é balela. Vão gastar dinheiro, vai ter superfaturamento, corrupção, roubalheira. O Pan-Americano mostrou isso e a Copa do Mundo também. Tem um estádio em Cuiabá que está abandonado, dando prejuízo. Como é que o país quer investir nos Jogos Olímpicos e muitas 14_200_07escolas públicas não têm quadra? Não há política esportiva no Brasil. Aqui no bairro mesmo, se você procurar basquete, não acha. Se você procurar vôlei, não acha. Handebol, a mesma coisa, não tem. Você vê um projeto de tênis diferente, que oferece tudo gratuito para as crianças, mas não tem praticamente nenhum apoio.

EE: Já teve a oportunidade de levar algum jogador profissional para conhecer o projeto, ter contato com as crianças?

AR: Não. Ainda não surgiu essa oportunidade, mas vamos fazer um evento agora, em julho, para justamente mexer com o esporte, massificar o tênis. Vamos fazer 24 horas de tênis no dia 25 de julho. A ideia é chamar pessoas ligadas à modalidade, como o Thomaz Bellucci, o Guga, o Feijão, a Teliana. Esse projeto é inédito. Queremos colocar de 300 a 500 pessoas nessas 24 horas, tudo gratuito. A entrada vai ser um quilo de alimento não perecível para doarmos a uma instituição de caridade. A pessoa vai ganhar uma camisa, vai ter contato com a raquete, vai ganhar um lanche e nós também vamos sortear uns brindes. Dia 25 de julho, 9h, até 26 de julho, 9h. Sempre vão ter duas pessoas batendo bola na quadra. Não precisa saber jogar tênis.

EE: Muito legal. Vai ser aí mesmo?

AR: Na própria quadra. Aí sim vamos tentar divulgar. Com a ajuda de colegas jornalistas, vamos tentar entrar em contato com a assessoria do Guga, para que bastante gente possa vir aqui prestigiar esse evento.

EE: Qual o perfil dos alunos que vocês têm?

AR: Nós temos alunos da faixa etária de sete a 17 anos. Hoje, para o aluno entrar no Tênis Solidário, tem que estudar em escola pública. No início não era assim. Temos alunos carentes mesmo. Alguns vão lá dependendo do lanche. Alguns têm uma situação melhor, mas nenhum deles teria condições de praticar tênis no Tijuca ou no Grajaú, que são clubes um pouquinho mais baratos, vamos dizer assim. Acho que nenhum desses 35 alunos teria condições de pagar uma escolinha de tênis. 

16_200_01EE: O projeto é claramente com cunho social, mas você falou que tem um menino que já se destaca em termos competitivos, apesar da pouca idade. Você pensava que poderia revelar um grande talento quando começou?

AR: Eu sou formado em Educação Física e fui atleta. Então, não tem como, mesmo sendo um projeto de cunho social, ficar só na parte social. Seria muito frustrante não levar um garoto desse para uma competição. Lógico que foi acontecendo naturalmente, mas dá muito trabalho. Ele treina todos os dias. Aí fico dependendo desses voluntários que colaboram com o projeto. Eu também sou voluntário, também tenho o meu emprego para ganhar dinheiro. Então, dá um pouco de trabalho. Tem que ter uma raquete melhor, uma bola melhor para ele treinar. Mas é muito bacana. A nossa ideia, para coroar esse trabalho, é reformar a quadra e encaminhar o Cauã para Alemanha. Lá, mesmo se ele não seguir o caminho de atleta, vai estudar em boas escolas e em uma boa faculdade. Porque se ele ficar aqui, talvez não seja nem uma coisa, nem outra.  

 

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Alunos do projeto participaram do "Roland Garros in the City", evento da Federação Francesa de Tênis, no Leme

 

EE: O seu trabalho paralelo ainda é com o esporte?

AR: É. Eu dou aula em uma academia e tenho a minha escolinha de tênis no próprio local. A minha renda é essa. No projeto social, eu sou voluntário.

18_200EE: Você já abordou o doping no esporte com seus alunos? Queria que você falasse a sua opinião a respeito do doping.

AR: Isso aí é abominável. Apesar de que, na nossa faixa etária aqui, só temos um garoto que está começando a competir, com oito anos. Nós falamos sobre doping de uma forma bem didática para ele entender. Mas o que passamos mais para os pais dele é para não tomar nem suplemento, só comer coisa natural. Nenhum tipo de medicamento, nada. O que mais assusta aqui, na verdade, não é nem o doping, é a droga. Um Federal esteve aqui no ano passado e fez uma palestra para eles sobre entorpecentes: crack, maconha, cocaína, heroína. Mas, em um futuro próximo, pretendemos trazer um médico para falar sobre doping também. 

EE: Você já teve algum problema com aluno a respeito do uso de drogas, ou de algum comportamento inadequado?

AR: Não. O que havia antes, quando nós chegamos, eram muitos usuários ao redor da quadra. Mas o próprio projeto os desbancou sem precisar falar nada. Eles se tocaram que ali era um espaço para crianças. Então, os usuários pararam o consumo de drogas ali onde a gente realiza as aulas de tênis. Mas nenhum aluno já teve esse tipo de problema.

19_200_01EE: Para você, o esporte é essencial? 

AR: O esporte é essencial porque ele só traz benefícios. O esporte exige disciplina e traz responsabilidade, além de formar também um cidadão. Quando o aluno entra aqui, eu digo logo na primeira aula que tem que ter boas notas, não pode ser reprovado na escola. O aluno que for reprovado sai do projeto. As próprias mães dos alunos falam que eles estão mais organizados, mais responsáveis com horário, compromisso. O esporte não é só o contato com a bola e o equipamento. O esporte é completo.

 

 

 

Fotos: Arquivo pessoal de Artur Ribeiro


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