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Antônio Guerra Peixe (Técnico de Handebol de Areia)

02/06/2015
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Por Katryn Dias

Antônio Guerra Peixe comanda a seleção brasileira de handebol de areia há 17 anos e já conquistou cinco títulos Mundiais. Apesar do sucesso, tamanha dedicação é empregada em uma modalidade ainda amadora, em que a maioria dos envolvidos não é remunerada.

Num esforço para ver o handebol de areia se desenvolver cada dia mais, Guerra Peixe faz mais do que seu cargo exige. Ele tem o costume de gravar em vídeo os jogos do Brasil e repassar para treinadores de outras seleções. Segundo ele, o objetivo é que todos cresçam.

 

EE: Você chegou a jogar handebol pelo Flamengo. A ideia de se especializar como técnico surgiu ainda nessa época?

AGP: Não, quando cheguei ao Flamengo eu já era técnico. Comecei a treinar com 19 anos e joguei até entrar no Exército. Quando saí, já não tinha mais idade para jogar em escola (já tinha acabado os estudos) e então comecei a trabalhar em escolas públicas. Na verdade, o interesse era fazer crescer o handebol nas escolas da minha cidade, Petrópolis (RJ). Passei três ou quatro anos assim e depois comecei a estudar para fazer Educação Física. Na época em que fui para o Flamengo, eu atuava como jogador e, ao mesmo tempo, treinava a equipe juvenil e júnior. 

01_200_29EE: Como você se envolveu com o handebol de areia?

AGP: Ao longo da década de 80, nós fazíamos o handebol de sete, com todas as regras normais, na areia. Era só diversão, nós jogávamos nas férias. Era mais um encontro de amigos. Isso rolava pelo Brasil inteiro. Onde tinha praia, tinha gente jogando handebol na areia. A gente se divertida, mas o jogo não rolava muito. O handebol é um esporte de muito contato, precisa do drible, e na areia não dava para jogar driblando. 

Mas em 1994, o presidente da Confederação Brasileira de Handebol (CBHb) participou de um congresso da Federação Internacional (IHF) onde os italianos mostraram um jogo adaptado na areia. Seria em uma quadra reduzida, com um número menor de atletas. O presidente gostou e, no ano seguinte, apresentou o jogo para o Nuzman, presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB). O Nuzman ficou encantado! Em seguida, trouxeram uma equipe da pioneira Itália e mais alguns outros países para um evento no Brasil e eu fui convidado para ir assistir. Quando vi o jogo, me encantei. A partir dali, nós começamos a trabalhar aqui no Rio com o beach handebol. Fui evoluindo até que, em 1998, me convidaram para a seleção brasileira, onde estou até hoje.

 

O handebol vai para a praia

 

guerra-peixe2-texto_450EE: Quais são as principais diferenças de regra entre o handebol de quadra e a versão de areia?

AGP: Ah, são muitas! Nós jogamos por sets, como é no vôlei, de 10 minutos. Não tem empate no jogo, sob hipótese nenhuma. Se o set empatar, temos uma “morte súbita” e, no primeiro gol que sair, o set está decidido. Se uma equipe ganhar um set e a adversária ganhar outro, temos um desempate no sistema Shoot out. É um atleta vem que correndo, recebe uma a bola lançada para ele, e enfrenta o goleiro. Esse é o grande barato do jogo.

Outra diferença é que nós temos gols diferenciados. Na areia, nós temos gols que valem um ou dois pontos. Valem dois pontos os gols de goleiro, de jogadas aéreas ou espetaculares. Além disso, não pode ter contato, como tem no handebol de quadra.

EE: Atualmente, como é a situação da modalidade no país? Existe alguma entidade que apoie?

AGP: Bom, o handebol de areia é uma modalidade do handebol. Está vinculado à IHF e à CBHb. Os atletas da seleção brasileira recebem os recursos do Bolsa-Atleta. Nós ainda estamos desenvolvendo a modalidade, indo para o 10º Circuito Nacional esse ano. Na verdade, os clubes bancam absolutamente as competições e a CBHb entra com a estrutura (as premiações, a arbitragem, a hotelaria). Alguns clubes já conseguiram pequenos patrocínios e estamos na expectativa de ir crescendo cada vez mais. Existe um grande interesse do Banco do Brasil e dos Correios, que já são patrocinadores do handebol e ajudaram muito no Mundial de Recife. Existe essa possibilidade, mas até agora não tem nada fechado.

02_200_31EE: E quanto à seleção, que não nada a ver com os clubes? A CBHb dá apoio?

AGP: A CBHb banca tudo. Passagens aéreas, transporte total, hotelaria, alimentação, tudo. Mas não tem pagamento.

EE: Então, como os jogadores se mantêm? Com salário que ganham nos clubes?

AGP: Não, os clubes não pagam salário. A verdade é que o handebol de areia é exclusivamente amador. Muitos atletas da seleção recebem o Bolsa-Atleta para desportos não-olímpicos, que gira em torno de R$850. Eles estudam ou trabalham, como na maioria das modalidades não-olímpicas. E, aliás, muitas olímpicas. Essa é a realidade do país e, se pesquisar, do mundo também, não tem muita diferença. 

03_200_27EE: E a comissão técnica? Não existe bolsa para treinadores...

AGP: Não. A comissão técnica trabalha no amor. Todos os profissionais são assalariados e, quando têm interesse em participar da seleção, pedem dispensa no trabalho. Assim a modalidade vai vivendo. 

Em algum momento, o futebol também foi amador. Aos poucos, os atletas começaram a receber e os salários foram aumentando gradualmente. Se fizermos uma relação do que o Pelé ganhou com o que o Neymar ganha hoje, o Rei do Futebol era um pobretão. Na época, ele ganhou muito pouco e ainda foi roubado. É a realidade de todas as modalidades. Eu peguei a mais destacada para mostrar como uma modalidade vai se desenvolvendo.

 

Trabalho na seleção

 

05_200_26EE: Você é o técnico das melhores seleções do mundo. Você sente que seu trabalho é reconhecido?

AGP: Sim. Não sou de divulgar nem falar nada, mas tenho o reconhecimento das pessoas envolvidas com a modalidade. Ninguém me para na rua, mas pessoas do mundo todo conhecem meu trabalho. Inclusive, sou convidado para ministrar cursos e palestras fora do Brasil. Isso tudo é uma forma de reconhecer o valor que eu empresto ao handebol. Tem gente que busca notoriedade, eu busco trabalho. 

EE: Você comanda a seleção desde 1998. O que conseguiu e não conseguiu realizar ao longo desses anos?

AGP: Vamos enumerar. Nós continuamos batalhando pela profissionalização do desporto; para que todos os profissionais sejam remunerados – primeiro diárias e, depois, salários –; que a modalidade venha a ser olímpica; que os clubes do Brasil sejam patrocinados; que tenhamos um número de competições compatível com o sonho e desejo de todos, ou seja, que aumente. Agora, estamos conseguindo estruturar a base da modalidade.

06_200_21EE: Você costuma filmar todos os jogos do Mundial e passar para os treinadores das outras seleções. Qual o objetivo disso?

AGP: Sim. Meu objetivo é que todos cresçam. Não adianta eu ser campeão sozinho. O crescimento dos adversários também vai gerar o meu crescimento. Meu pensamento é diferente. A maioria preconiza ser melhor e os outros que se ferrem. Eu não concordo. Sempre ajudo os países que me procuram e até mesmo os que nem me procuraram, eu me ofereço. Venho fazendo isso sempre. O beach handebol está evoluindo muito. 

EE: Quais as principais competições de handebol de areia?

AGP: As competições que temos são: estaduais, Circuito Nacional, Jogos Sul-Americanos de Praia e Areia, Jogos Pan-Americanos, Mundiais e World Games. Os Jogos Pan-Americanos acontecem ano que vem, na Venezuela, e normalmente, são classificatórios para o Mundial, que acontece de dois em dois anos. O próximo será ano que vem, na Hungria, antes da Olimpíada do Rio. Além disso, temos o World Games, que é como uma Olimpíada de modalidades não-olímpicas. A próxima edição é em 2017, na Polônia. Tudo que envolve beach handebol, a seleção está dentro. 

 

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Guerra Peixe, de camisa azul, no comando da seleção no primeiro Pan-Americano da modalidade

 

 

Possibilidades de crescimento

 

07_200_25EE: Existe uma luta para que o handebol de areia entre para o programa olímpico. O que mudaria para o esporte se isso acontecesse?

AGP: Existe essa luta e existiu até a possibilidade. Se acontecer, muda tudo. Todo o esporte que é olímpico tem a possibilidade de se profissionalizar muito mais. Além disso, tem recursos e patrocinadores. Tudo superdimensiona. Por isso, é a nossa grande luta. A modalidade foi aos Jogos Olímpicos da Juventude de Nanquim, no ano passado, e vai continuar no programa da edição de 2018, na Argentina. Isso já foi um grande impulso.

08_200_24EE: O que falta para a modalidade se desenvolver um pouco mais por aqui?

AGP: O patrocínio é o que alavanca qualquer modalidade. Mas, para se ter patrocínio, é preciso ter mídia. A televisão só entra se tiver patrocínio e o patrocínio só entra se tiver televisão. O grande mistério do esporte é entender em qual momento isso vai acontecer.  

EE: Houve alguma mudança depois do Mundial de Recife, que foi televisionado?

AGP: Olha, apareceram muitas promessas de patrocínio para as etapas do Circuito Nacional e a seleção. Mas até o momento não existe nada concretizado.*

 *Procurada para responder sobre as promessas de patrocínio, a CBHb não retornou.

 

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Guerra Peixe orienta jogadores durante treino na praia

 

 

Mais experiências 

 

09_200_11EE: A conquista do título mundial de 2014 teve um sabor especial por ter sido obtida em casa? 

AGP: É mais difícil competir em casa. Isso já é até uma preocupação do o pessoal do COB para as Olimpíadas de 2016. Estando perto da família, o atleta acaba tendo envolvimentos que tiram um pouco o foco da competição. Por exemplo, a final do Mundial de Recife estava superlotada com gente de fora sem poder entrar, com risco de acidente. Tinha atleta que estava com 20 familiares do lado de fora. Como é que fica a cabeça desse atleta, sabendo que sua família não vai poder assistir ao jogo? Na Olimpíada, é a mesma coisa. Outro dia ouvi o Bernardinho [técnico da seleção masculina de vôlei] falando sobre isso. Em uma Olimpíada, em muitas modalidades, nem mesmo os atletas têm espaço para assistir aos jogos dos adversários. Então, é muito 10_200_13complicado. Vencer em casa é muito mais difícil.

EE: Tem que ter um trabalho psicológico por trás, certo?

AGP: Com certeza. Mas tem uma questão estrutural que arrebenta com qualquer psicológico. O atleta pode fazer um trabalho maravilhoso, mas se for jogar uma final e sua namorada não puder assistir, seu psicológico vai para a lona. Essa é a questão.

 

 

 

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Jogadores da seleção levantam o técnico em comemoração após conquista do título 

 

 

EE: Você foi às Olimpíada de Barcelona, Atlanta e Sidney como espectador. Como foi essa experiência?

11_200_05AGP: Foi fantástico! Eu era 1000% envolvido com handebol, então foi uma experiência única para mim. Só depois que nós tivermos os Jogos no Brasil as pessoas vão ter a real dimensão do que é uma Olimpíada. É uma coisa louca, um carnaval de competições. É muito bacana, envolvente. Para mim, foi o ápice no handebol.

EE: Hoje existem escolinhas em que as crianças podem aprender já na areia? Ou ainda é preciso começar na quadra?

AGP: Em alguns lugares sim. No Rio Grande do Norte tem. No Rio de Janeiro, Copacabana e Niterói têm. Não resta dúvida que a maior parte começa na quadra e migra para a areia. Mas no Rio Grande do Norte, que tem um trabalho inverso, eles perceberam que começando na areia também é possível 12_200_04migrar para a quadra. Isso afugenta o medo que algumas pessoas têm de que o handebol de areia tome o espaço do handebol de quadra. Isso é uma bobeira. Não há a menor possibilidade, tem espaço para todos.

EE: Existe controle de doping no handebol de areia? Qual sua posição sobre o doping no esporte?

AGP: Os exames antidoping são realizados em Mundiais, Campeonatos Pan-Americanos e World Games. Para mim, o doping é um lixo. Vai contra tudo que o desporto preconiza. É o anti fairplay. É vencer por vencer ou para ganhar dinheiro, o mesmo que roubar. Uma pessoa que se dopa está traindo a confiança de todos e colocando em risco os companheiros. No desporto coletivo, se um atleta é pego no doping, o time corre o risco de ter o título 13_200_04caçado. Então, o atleta está traindo todo um trabalho. Quando é individual, o atleta que pague o preço sozinho. Claro que também tem o trabalho dos preparadores e médicos, que normalmente estão envolvidos, mas nem sempre é possível provar. Doping é o grande vilão que pode levar a um declínio do esporte no mundo. Algumas modalidades estão sob risco por excesso de casos de doping.

EE: Pra você, o esporte é essencial?

14_200_06AGP: O esporte está inserido em vários pilares da sociedade. É entretenimento, negócio, saúde, possibilidades sociais. Dentro desse universo, é possível trabalhar com vários segmentos. Esporte de alto rendimento não é saúde, mas promove uma série de movimentos que geram saúde. Influencia as pessoas a praticarem atividades físicas por bem estar ou lazer. Tudo isso gera saúde.

 

 

Fotos: Arquivo pessoal de Antônio Guerra Peixe


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