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Angélica Kvieczynski (Ginástica Rítmica)

16/09/2014
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Por Katryn Dias

Hexacampeã brasileira, bicampeã dos Jogos Sul-Americanos, três vezes eleita a melhor ginasta do país pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e a primeira brasileira a conquistar uma medalha no individual geral em Jogos Pan-Americanos. Os títulos comprovam a supremacia de Angélica Kvieczynski na ginástica rítmica dentro do país.

Aos 23 anos, a paranaense sonha em conquistar sua classificação para a Olimpíada do Rio e continuar trazendo resultados inéditos para o Brasil. Para isso, a ginasta não pode ser prejudicada por erros administrativos, como o que vai deixá-la fora da disputa por medalhas no Campeonato Mundial deste mês, na Turquia.

 

Esporte Essencial: Como você conheceu a ginástica rítmica?

Angélica Kvieczynski: Foi por acaso, na verdade. Na minha cidade, Toledo, no Paraná, tinha um projeto e eu passei onde ficava a escolinha de ginástica. Quando vi, perguntei para a minha mãe o que era e ela me explicou que era ginástica rítmica. Eu gostei de ver as meninas treinando e quis logo começar. A minha mãe me matriculou e comecei a treinar.

EE: Na sua cidade, a ginástica rítmica é muito difundida?

AK: Lá em Tolendo temos um projeto bem grande com ginástica, que tem cerca de 1500 crianças treinando, entre escolinha e alto rendimento. A prefeitura da cidade tem alguns parceiros que mantém esse projeto, como Sadia, Sesi, Unimed e Itaipu. 

EE: Quando foi que você começou a se destacar no esporte?

01_200_03AK: Sempre fui uma criança bem esforçada, treinava muito e os resultados vieram rápido. Comecei a treinar em 2000 e já em 2002 fui campeã pan-americana infantil, aos 12 anos. Eu me dedicava bastante aos treinos, era a primeira a chegar ao ginásio e a última a sair.

EE: Você já disse que acredita estar hoje na melhor fase da sua carreira. Você precisou abdicar de muitas coisas para chegar até esse momento?

AK: Sim. Eu abri mão de muita coisa, mas para ser atleta de alto rendimento isso é necessário. Sempre me dediquei bastante e agora estou me dedicando mais ainda para a próxima Olimpíada, que é a minha meta.

 

A meta do ano: Mundial da Turquia

 

EE: Este mês você participa do Campeonato Mundial. Qual a sua expectativa para a competição?

02_200_04AK: Estou indo agora para o Mundial, que vai ser na Turquia. Não sei ainda se vou competir em todos os aparelhos, porque houve um erro – acho que foi erro, pelo menos foi o que me falaram – da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG). Mesmo eu sendo a melhor ginasta do país, não me inscreveram em todos os aparelhos e provavelmente não vou poder concorrer no individual geral. Então, estou bastante decepcionada com esse órgão. Mas vou lá, vou fazer o meu melhor para no próximo ano poder competir bem e me classificar.

EE: Qual a consequência desse erro para você?

AK: Na ginástica rítmica, não tem como competir em um ou outro aparelho. As ginastas precisam se classificar no geral para poderem competir a final por aparelhos. Então, a final por aparelhos não é tão importante quanto o individual geral.

EE: Isso quer dizer que você vai para o Mundial sem poder disputar medalhas?

angelica-meeting-cbg-texto_449AK: É basicamente isso. Não competindo todos os aparelhos, não vou poder classificar entre as 24 primeiras que vão para a final, porque vão somar as notas de todos os aparelhos e eu estou inscrita somente em dois. Nós vamos em três ginastas. Eles escreveram as outras em quatro aparelhos e eu, somente em dois.

Estou indo para somar para a equipe. O Brasil pode apresentar dez coreografias, com até quatro ginastas. Mas eles optaram por levar três ginastas, sendo duas fazendo quatro aparelhos e uma, dois. Eu não sei, não entendi ainda o porquê, mas me escolheram para fazer apenas dois. Mesmo esse ano eu tendo conquistado o bicampeonato nos Jogos Sul-Americanos e conseguido notas que nenhuma brasileira tinha conseguido em Copas do Mundo. Logo depois fui para o Meeting Internacional de Ginástica Rítmica aqui no Brasil e fiquei à frente de todas as brasileiras em todos os aparelhos e no geral. No Pré-Pan, que aconteceu no Canadá, fui a única que passou para a final em todos os aparelhos e ainda medalhou. Eu trouxe seis medalhas do Pré-Pan para casa. Mas aconteceu esse incidente, não sei se foi por erro ou por decisão...

EE: Essa decisão de que provas você vai competir não deveria ser tomada pelos técnicos da seleção brasileira, em vez de ser a CBG?

AK: Foi uma decisão da CBG, até porque a minha técnica, que é também a técnica da seleção desde 2007, não sabia de nada. Essa informação nós ficamos sabendo quando saiu no site da Federação Internacional de Ginástica (FIG) a lista das ginastas que iam competir. Entramos em contato com a CBG, falaram que vão tentar mudar, mas não sei se tem tempo ainda, não sei o que vai acontecer...

EE: Essa edição do Mundial já é classificatória para os Jogos do Rio?

AK: Esse ano não. Ano que vem teremos o Pré-Olímpico, que vai classificar as 20 ginastas no individual para a Olimpíada. No conjunto, já não sei quantas vagas serão distribuídas.

03_200_03EE: O Brasil já tem vaga olímpica garantida?

AK: O Brasil tem uma vaga por ser país-sede, mas não é o que eu quero. Eu quero é conquistar a minha própria vaga. É para isso que estou trabalhando. Se tudo correr bem e como planejado... Já era para esse ano eu chegar mais próximo disso, mas acredito que não vai acontecer agora. Então, vou ter que me esforçar em dobro para aparecer melhor no ano que vem. O planejamento que fiz para essa temporada foi totalmente certo. A comissão técnica fez um planejamento para eu estar no auge agora no Mundial.

EE: Esse ano você ainda tem alguma competição internacional ou o Mundial era sua última chance de ser vista?

AK: Então, eu fui convidada para ir para a Berlin Masters, uma competição que reúne algumas ginastas por convite. Como recebi esse convite, vou para essa competição tentar recuperar um pouco do Mundial. Quem vai me levar, pagando as despesas, é o clube.

 

A ginástica rítmica no Brasil

 

EE: O que falta para a ginástica rítmica brasileira se destacar mais internacionalmente?

AK: Primeiramente, não pode acontecer esse tipo de erro. Esses erros são decisivos na carreira de um atleta. Eu treinei o ano inteiro com meta nesse campeonato, que é o mais importante da temporada, já visando os Jogos Olímpicos. E agora aconteceu isso...04_200_04

Precisamos de mais investimentos, mais competições. Nós estamos viajando pouco para competições fora. Temos muitas etapas de Copa do Mundo e as brasileiras esse ano quase não apareceram lá fora. Isso é muito importante, ainda mais porque os Jogos Olímpicos estão batendo na porta e nós podemos trazer um resultado melhor. O Brasil tem uma ótima equipe na ginástica rítmica e uma ótima comissão técnica. Então, acredito que tudo pode melhorar.

EE: Você disse recentemente que pode conseguir mais resultados expressivos se tiver o apoio necessário. Que tipo de apoio está faltando?

AK: Esse tipo de apoio de viagens. Esse ano nós quase não viajamos para fora e é muito importante competir em Copas do Mundo. Por exemplo, os Estados Unidos e o Canadá estão em quase todas as etapas, são ginastas que estão competindo frequentemente. Aí nós brasileiras chegamos praticamente de cara no Mundial, sem ter competido tanto. Essa competição fora é necessária para nós vermos o nível das ginastas. Também precisamos fazer intercâmbios de treinamento. Na Rússia, que é a melhor agora, a ginástica rítmica está presente há mais de 100 anos. Aqui no Brasil, na minha cidade, temos a modalidade há 20 anos. Então, temos muito que aprender.

EE: Você vê com bons olhos a contratação de técnicos estrangeiros? Recentemente você recebeu orientação de uma técnica da Bulgária.

AK: Isso é essencial para nós termos acesso a essa experiência. Lá na Europa elas estão muito acostumadas, já formaram ginastas muito boas, campeãs olímpicas... No Brasil, ainda falta. Então, tem que ter esse estudo e todo esse planejamento. Meu clube contratou uma técnica búlgara, que ficou em Toledo dois meses e foi muito bom. Para as ginastas da seleção isso seria bastante interessante.

 

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Sorridente em uma das vezes que subiu ao pódio nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, em 2011

 

EE: A seleção não faz esse tipo de contratação?

AK: Ultimamente não... Agora nós estamos fazendo uma climatização na Bulgária, mas só vamos ficar uma semana antes do Campeonato Mundial. Nesse momento, não tem muito o que melhorar, é só manter o trabalho para competir bem. É importante fazer esse tipo de coisa em começo de ciclo e investimento em ginastas certas mais novas.

05_200_05EE: Você vê acontecendo uma renovação na ginástica rítmica? Existe uma nova geração que pode seguir o seu exemplo de conquistas?

AK: Olha, ginastas novas com capacidade o Brasil tem muitas. Basta investir, e nas certas.

EE: A CBG faz um bom trabalho na base?

AK: Eles estão fazendo. Está melhorando cada vez mais. Mas se nós visamos resultados melhores, acho que ainda precisa melhorar bastante.

EE: Qual a sua opinião sobre o trabalho da CBG quanto à divulgação da ginástica?

AK: Agora a CBG vem fazendo um bom trabalho de divulgação da ginástica rítmica. Estão sendo feito alguns campeonatos aqui no Brasil e isso eu acho muito interessante. Nós vemos o número de crianças praticantes crescendo e a qualidade melhorando também. Eu acompanho os Jogos Escolares da Juventude há muito tempo e percebo que 06_200_04cada ano melhora o nível das ginastas que estão competindo. Isso é bom.

EE: A responsabilidade de ser a melhor ginasta do país pesa?

AK: Ah, pesa, mas pesa de maneira positiva. Eu fico querendo manter os resultados e melhorar cada vez mais. É como eu digo para as meninas mais novas que treinam comigo: nós estamos abrindo as portas para a próxima geração, só vai depender de vocês mantê-las abertas.

EE: Como é a experiência de ser embaixadora dos Jogos Escolares? 

AK: Nossa, já deve ser a quinta vez que sou embaixadora! É maravilhoso! Eu gosto muito, porque gosto de criança. Acho que é muito importante para o crescimento das crianças e dos atletas mais novos ter esse contato com os ídolos delas. Elas fazem perguntas muito interessantes. Eu quando era mais nova gostaria de ter recebido mais informações, como elas têm acesso. Esse contato é muito legal.

 

Os próximos desafios

 

angelica_cbg_international_meeting_texto_507EE: A vaga para o Pan de Toronto você já tem, não é?

AK: Isso, esse ano nós já conseguimos vaga para Toronto. No Campeonato pré-Pan eu fui a primeira brasileira, com bastante diferença e trouxe seis medalhas da competição.

EE: A meta é repetir o resultado passado?

AK: Eu quero trazer o máximo de medalhas possível e eu acredito que tenha essa possibilidade.

EE: Os Jogos Olímpicos do Rio são a sua meta. Você acha que tem condições de chegar ao pódio?

AK: Não sei, isso é uma dúvida ainda. Vou fazer meu máximo para chegar ao pódio, mas como eu disse, falta muito para a ginástica rítmica do Brasil crescer. Mas acredito que tudo é possível. Cada competição é diferente e acho que a gente pode melhorar muito. Eu não sei se vou ficar o próximo ciclo, só vou decidir depois que passarem os Jogos do Rio.

EE: Você já pensa no que vai fazer quando parar de competir?

AK: Não, ainda não sei. Eu estou fazendo faculdade de Educação Física, mas ainda não sei o que vou fazer depois da Olimpíada do Rio. Vou deixar para decidir depois se vou continuar. Também vai depender do nível em que estiver a ginástica brasileira...

EE: Mas você pensa em trabalhar com a ginástica depois que se formar?

AK: Ah, acho que não vai ter como fugir dessa responsabilidade (risos)! Hoje eu já tenho uma bagagem bastante grande e acho que tenho muito a passar para as gerações futuras. Também penso em entrar numa área administrativa 07_200_05para melhorar cada vez mais o nosso esporte. Ainda não estou pensando muito nisso, porque tenho um outro foco agora.

EE: Qual sua opinião sobre o doping no esporte?

AK: Olha, eu acho o doping extremamente negativo. Doping é errado, é antiético por parte do atleta. Para mim, é tão errado quanto chegar e destruir um equipamento que o atleta vai usar para competir, porque quem se dopa está usando de má-fé. E não tem porque fazer isso. É só treinar, ser esforçado que consegue o mesmo resultado. Talvez demore um pouco mais de tempo, mas consegue.

EE: Para você, o esporte é essencial?

AK: Ah, o esporte é essencial para tudo! Para criar um bom caráter, para ter disciplina... Hoje agradeço muito ter entrado no esporte. Eu tive contato com culturas totalmente diferentes, viajei muito, aprendi muita coisa que escola e banco de faculdade nenhum vai me proporcionar... Meus pais não teriam condições de me mandar para esses lugares para eu aprender tudo o que aprendi. O esporte foi essencial na vida para tudo.

Fotos: Ricardo Bufolin/CBG

 

Nota da Confederação Brasileira de Ginástica:

No momento da inscrição, houve uma falha no preenchimento do sistema e, por isso, a ginasta Angélica Kvieczynski não foi inscrita em todos os aparelhos. Estamos tentando reverter a situação junto à Federação Internacional de Ginástica (FIG) para que ela possa representar o Brasil em todos os aparelhos.


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