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Esporte que constrói o Brasil.

ENTREVISTAS

Andrew Jennings (Jornalista)

15/10/2013
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Corrupção: um mal que atinge até o esporte

 

Por Katryn Dias, Giulia Afiune e Maria Clara Modesto

andrew-jennings-div-panda-books_300Com 46 anos de carreira, o repórter britânico Andrew Jennings é um nome muito conhecido no cenário internacional pelas investigações que fez sobre as instituições esportivas como o COI (Comitê Olímpico Internacional) e a Fifa (Federação Internacional de Futebol).

Há 15 anos, Jennings descobriu eleições compradas, manipulação de resultados de jogos e negociatas para a escolha de países-sede da Copa do Mundo. Agora, às vésperas do campeonato no Brasil, o jornalista fala sobre a corrupção no esporte.

EE: Como e quando surgiu seu interesse por investigar esportes?

AJ: Na realidade, eu nunca investiguei esportes e não sei nada sobre esportes. Eu sou investigador de corrupção. Ao longo dos anos, fiz diversas investigações sobre corrupção e, inclusive, fui repórter de guerra em 1989, quando Beirute estava sendo bombardeada.

Eu já fazia muita coisa, mas o que me inspirou foi a ideia de um livro sobre a corrupção no COI (Comitê Olímpico Internacional), que promove as Olimpíadas. Quando eu estava investigando o COI, e fiz isso por um longo tempo, surgiram outros escândalos. Mas foi preciso tempo para perceber que tinha algo muito errado com a FIFA. Então, quando um editor do London Daily Mail me pediu para investigar a FIFA, eu falei não, porque teria que viajar por todo o mundo. Mas, de qualquer jeito, acabei entrando nisso.

Então, não são matérias de esportes. Se me mandarem cobrir um jogo, tenho certeza de que vou voltar para a redação com o placar errado. Eu não estou interessado no jogo, estou interessado no fato de que estão roubando a paixão do povo e no montante de dinheiro que isso rende.

EE: Você escreveu um texto sobre os protestos durante a Copa das Confederações (veja o link abaixo), em julho. O que achou das manifestações?

Eu acho que, no futuro, os brasileiros vão olhar para esse momento como o renascimento da democracia. Ali, o povo disse não à roubalheira. Eram pessoas da classe média, que estudaram, e pagam impostos. Muitas dessas pessoas vão subir na carreira em alguns anos e vão se lembrar de terem sido atacadas com gás lacrimogêneo.

"O Brasil não conseguiu a Copa porque é bom de futebol, isso é totalmente desimportante."

Meio milhão de pessoas nas ruas de São Paulo, uma semana antes do início da Copa das Confederações! O que vocês fizeram foi gritar: “vá para casa, Fifa, bando de ladrões! Nós não te queremos aqui!”. E vocês devem fazer isso de novo quando a Fifa for se reunir, uma semana antes da Copa do Mundo. Não deixem essa reunião acontecer. Sem violência, sem bombas, sem pedras. Só vaias.

Vocês amam o seu futebol, mas não vão dar seu dinheiro para um bando de corruptos. Vocês não precisam da Copa do Mundo, porque não tem nenhum benefício em ser sede. Vocês podem só jogar nela. Os brasileiros vão ver os jogos pela TV, de qualquer jeito, porque não vão conseguir ingressos.

Esses protestos mostram que os brasileiros por todo o país estão com raiva. Isso pode ser o renascimento da democracia, porque a democracia não voltou realmente depois de 1985. Vocês têm uma ilusão de democracia, com políticos corruptos em Brasília. Mas a Copa das Confederações acendeu uma faísca. Essas gigantescas manifestações mostraram que é possível frear o [Joseph] Blatter.

O povo brasileiro não é mais estúpido, como a FIFA pensava. E isso se deve muito aos bons repórteres que vocês têm e que fizeram trabalhos investigativos maravilhosos, como Rodrigo Mattos e Lúcio de Castro. Mas eu não posso fazer um balanço equilibrado da cobertura da mídia brasileira nesses momentos, porque não tenho acesso a tudo que é produzido, já que não falo português.

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EE: Como foi a eleição do Brasil para sede da Copa do Mundo FIFA em 2014?

AJ: O Brasil não conseguiu a Copa porque é bom de futebol, isso é totalmente desimportante. Em minha opinião, o Brasil conseguiu a Copa do Mundo porque o Teixeira achou que conseguia roubar esse país cego, construindo estádios e inflando preços.

O crime de Teixeira não é só o roubo de dinheiro, é o fato de que ele abusou da paixão nacional. O ambiente era favorável para roubar o Brasil, então ele persuadiu a FIFA, principalmente o Blatter, dizendo que todos eram “estúpidos pelo futebol” aqui. Eles perceberam que podiam roubar do futebol. Não há nada errado em ser um fã de futebol. Ter paixões é um direito. Mas ele explorou isso e saiu impune por tanto tempo…

EE: Você acha que uma mudança na presidência da FIFA pode melhorar os problemas de corrupção?

AJ: Platini seria melhor do que o Blatter, mas ele ainda não se manifestou, porque está tentando manter os votos dos corruptos.

Meu próximo livro será sobre isso, então não vou falar mais para vocês (risos). Mas ele deve sair antes da Copa do Mundo. Então, os brasileiros poderão saber mais detalhes sobre como foram ferrados.

EE: Além da FIFA e das pessoas no entorno da organização, as empresas brasileiras também estão lucrando com a Copa. Você acha que existe algum tipo de acordo entre essas partes?

jennings_400AJ: Ah, sim. Teixeira está por trás dos contratos, não é? Se um dos homens mais sujos da política e da economia brasileiras está por trás dos contratos, você tem que escrutinar esses documentos. Tem que perguntar a essas companhias o porquê. Mas não vá perguntar para os chefes, eles vão inventar alguma desculpa para explicar porque a obra ficou mais cara. Procurar os funcionários que definiram os custos do contrato, os profissionais que estavam envolvidos na criação dos estádios e perguntar quais foram os custos. E descobrir por que vocês vão ter esses estádios dos quais não precisam. Isso é uma novidade para estrangeiros. Aqui a infraestrutura e o transporte são tão ruins que os brasileiros nem vão para os estádios. Então, eles deveriam construir a rua primeiro, depois o estádio.

EE: Você acha que existe algum jeito de diminuir a corrupção nos esportes, mais especificamente no Brasil?

AJ: É necessário democratizar a CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Eu acho que o Romário está fazendo uma Lei de Esportes que deve ser boa. Ele está cercado por um bom time, então as propostas devem ser boas.

Diferente do Bebeto e do Ronaldo, ele está criticando. É bom que ele ganhou muito dinheiro com o futebol e, por isso, é difícil que seja comprado. Quando as manifestações começaram, ele foi o primeiro a apoiá-las publicamente. E, sendo das favelas, ele sabe que os ingressos não estão lá, mesmo que lá estejam as pessoas que pagam os impostos que pagam a Copa do Mundo. Eu não estou dizendo que ele é um líder, mas a voz dele, como uma estrela do futebol, ajuda muito. Porque ele é uma voz genuína dentro do esporte que vocês amam e todos sabem que não pode ser comprado. Também não podem tirar os mil gols dele, dizendo “você ganhou a Copa de 1994, quem se importa?” (risos). Ele é muito interessante porque está fazendo a coisa certa e é intocável.

Leia aqui o artigo de Jennings sobre as manifestações populares no Brasil

Fotos: Divulgação e Katryn Dias/EE


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