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André Heller (Vôlei)

29/07/2014
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A base do sucesso do esporte está na escola

 

Por Fabiana Bentes

Durante 12 anos, André Heller dedicou-se à seleção brasileira de vôlei e viveu para colecionar títulos. O campeão olímpico em Atenas 2004, também foi bicampeão sul-americano, hexacampeão da Liga Mundial, bicampeão da Copa do Mundo, campeão da Copa dos Campeões, campeão mundial, campeão pan-americano, medalhista de prata nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008 e bicampeão da Copa América.

Nascido em família humilde, André ressalta que educou-se no esporte, tendo como espelho de sucesso a geração de ouro de Barcelona 92. Hoje, aposentado das quadras, Heller sonha em ter uma escola que use o vôlei como ferramenta de educação mas, enquanto o sonho não chega, iniciou seu pós-carreia como um gestor esportivo da nova geração e faz palestras sobre a sua experiência no esporte em escolas, universidades e empresas.

O Esporte Essencial bate na tecla de forma intermitente com relação ao esporte e a educação, de certa forma, ao menos, já estamos alinhados com grandes campões olímpicos de diversas modalidades, e com o André não foi diferente.

 

Esporte Essencial: Qual a sua expectativa para os Jogos Olímpicos de 2016?

andre-heller-ataque-liga_mundial2008-cbv-texto_599André Heller: Já que eles serão no Brasil, eu espero que tudo vá bem, que as coisas sejam feitas a tempo, que a gente receba os atletas de todas as delegações de maneira cordial e que eles tenham todas as condições necessárias. Mais que isso, espero que as coisas andem bem e da maneira correta. A gente ouve muitas notícias sobre superfaturamento de obras, desvio de verba, essas coisas me incomodam bastante. Eu não consigo separar a vinda da Olimpíada ao Rio de Janeiro sem pensar nisso. Vai ser muito legal, mas poderia ser muito mais. Desde o início quando surgiu a ideia, nem sei em que ano surgiu esse papo de o Brasil ser a sede, eu falei que eu era contra, porque nós ainda temos muita coisa para resolver aqui.

EE: O quê, por exemplo?

AH: Tudo. Nós temos muita coisa para resolver aqui no Brasil antes de gastar dinheiro num evento desse. Eu sou suspeito de falar, porque eu participei de três Olimpíadas. É uma experiência que todo mundo tinha que ter, não só os atletas. As pessoas deviam poder entrar numa vila olímpica, porque é a coisa mais maravilhosa do mundo para qualquer pessoa. Para um atleta então, nem se fala. Mas nós temos muita coisa para resolver ainda, muitos lugares para investir dinheiro.

EE: Você não acha que o impulso dos Jogos Olímpicos é o legado?

AH: Não sei... Eu espero que o legado seja esse: que a gente tenha uma estrutura para depois em condições para o uso. Mas, historicamente, isso nunca aconteceu.

EE: Pelo que você viu no Pan-Americano?

AH: Sim. Pelo que me consta, as coisas não foram aproveitadas, tem estruturas que não são mais usadas e ginásios que estão sucateados. Isso que  eu espero que não aconteça nas Olimpíadas. Sinceramente, eu nunca concordei muito com os Jogos no Brasil. Obviamente, que se tudo der certo, tudo caminhar da maneira correta, é muito bacana sediar esses eventos como a Copa do Mundo, as Olimpíadas e os Jogos Pan-Americanos. Mas, de novo,  historicamente nós não aproveitamos isso.

EE: Qual foi a sua avaliação da Copa do Mundo no Brasil?

AH: É até um pecado falar isso...  Mas, sinceramente, eu não saí de casa em nenhum dos jogos, assisti poucos. Os jogos do Brasil, obviamente, tentei assistir e torcer porque seria injusto torcer contra a nossa seleção. Eu não faria isso de maneira alguma. Estimulei minha filha de quatro anos a cantar o hino, torcer. Ela foi uma das responsáveis por um não conseguir acompanhar o jogo de maneira efetiva (risos) . Mas pelo o que eu sei, pelo o que eu li nos jornais e em outros meios de comunicação, tudo correu bem. Agora, pelas informações que chegam até nós, foi gasto muito dinheiro. Se eu não me engano, foi gasto um valor equivalente às últimas três Copas juntas. Isso a gente tem que questionar.

01_200EE: Há que se questionar se valeu a pena efetivamente?

AH: Já te dou a minha resposta, que é não, não valeu a pena. Por mais que as pessoas tenham se divertido e os estádios tenham ficado sempre lotados. Agora acabou a Copa e aí? E a saúde? E, mais do que isso, e a educação? Tudo parte da educação e a educação não se faz só na escola, se faz em casa. E para um pai ou uma mãe educar um filho, eles também precisam ser educados. Mas eu digo educação mesmo. Eu vi muitas manifestações durante a Copa do mundo de patriotismo. Todo mundo cantando o hino, vestindo amarelo, cobrindo o capô do carro com a bandeira do Brasil... Muito bacana mesmo, mas isso não quer dizer que a pessoa é patriota ou que é um cidadão. Isso nada tem a ver. Só significa torcer por uma seleção brasileira. Eu sou muito idealista em alguns sentidos. Nisso eu não abro mão: cidadania e patriotismo a gente faz no nosso dia a dia, com educação. E não é só na escola, é no trânsito, é 02_200não jogar lixo na rua... Parece bobagem, mas eu fico irritado com isso. Hoje, eu na rua, parado no sinal, eu vi gente jogando latinha de refrigerante pela janela do carro! Isso não dá. Aí todo mundo diz que quer um país melhor, que o governante tem que fazer isso e aquilo. Mas se a gente não faz o que nos cabe! Falta de educação não tem nível social.

EE: O brasileiro quer torcer pelo Brasil, mas no dia a dia não cumpre seus deveres.

AH: É isso mesmo. Torcer pelo Brasil é muito fácil e muito legal. Eu torci para eles irem bem. Fiquei triste pelos caras... Claro que eu queria que eles ganhassem, mas o quarto ou o terceiro lugar era muito importante também. Mas é importante para o histórico daquela seleção, isso não significa nada para a gente como cidadão! As pessoas podem até não concordarem comigo, mas o que adianta a seleção brasileira ganhar e depois a gente continuar fazendo as mesmas coisas? Nós estamos passando uma crise hídrica aqui no Sudeste, economia de água, mas a gente anda por aí e tem gente lavando a calçada com mangueira, ninguém economiza luz, todo mundo quer sonegar, quer ser malandro. E é sujeira, é violência, é roubo... Eu cresci já sabendo que tudo isso era errado. O esporte muito me ajudou nisso, porque no esporte você tem que seguir as regras, tem que contribuir para a equipe, porque  o bem da equipe está muito acima do seu bem pessoal. Então eu fico muito indignado com isso. Eu não consegui curtir a Copa por causa disso, porque eu via muitas manifestações patrióticas que depois não continuam. Mas e depois? Depois a gente olhava para o estádio e tinha gente que não conseguia jogar um copo no lixo! E depois inunda tudo, com gente morrendo afogada, por causa dessa sujeira que as pessoas jogam no chão...

EE: Eu escrevi sobre isso onde eu dizia que a surpresa com o fracasso em questão do esporte foi mais porque é um esporte de cifras milionárias e o Brasil tem um histórico incontestável. Mas o resultado refletiu muito bem o esporte no Brasil, que é a falta de planejamento, o investimento mal feito, a falta de estrutura... Nos outros esportes, principalmente nos olímpicos, a gente conta com talentos individuais e foi isso o que aconteceu dessa vez com o futebol. Você também encara essa derrota na Copa como um reflexo do esporte no país? 

AH: Falando em termos técnicos e bem específico da seleção brasileira de futebol, em minha opinião, a pior derrota não foi na semifinal foi na disputa de terceiro. Porque o terceiro lugar vale muita coisa. Para mim, eles poderiam ter saído bem da Copa do Mundo. Eu não sei quais fatores influenciaram, desconheço porque aconteceu daquela maneira e eles acabaram ficando em quarto lugar, que também é uma bela posição. Óbivo que todo mundo quer ser 03_200campeão, mas quarto também é bom...

Eu já fiquei em quarto lugar, em terceiro lugar e dei muito valor. Sempre que eu dei o meu máximo no processo, independente da posição, eu sempre dei valor. Às vezes nem ganhei medalha... eu adoro uma frase do Bernardo: “a vontade de se preparar tem que ser muito maior do que a vontade de vencer”. Então, o meu empenho em me preparar sempre foi muito maior do que a vontade de vencer. Eu sabia que o resultado era consequência do trabalho. Em relação ao esporte brasileiro, eu não vejo o Brasil nem perto de ser uma potência olímpica. O vôlei – e aí eu falo com propriedade – alcançou tudo o que alcançou porque fez um planejamento. Tem um centro de treinamento, tem categorias de base fortes já na seleção, nos clubes não é assim.

Nós, do projeto Vôlei Brasil, somos diferenciados e eu não falo isso por vaidade. Nós temos quatro categorias de base, que representam uma das pernas do nosso tripé. O tripé é constituído pelas nossas categorias de base, 04_200nossos projetos sociais e, por fim, o esporte de alto rendimento. Então, eu vejo o Brasil muito longe de se organizar nesse sentido, mas é possível. Eu sempre tenho discussões muito bacanas com um amigo meu Daniel Simões, que é professor e tem cinco especializações em pedagogia do esporte. Nós dois achamos que o processo de educação esportiva está invertido aqui. O Brasil pensa no esporte com fins olímpicos e se a gente considerar uma pirâmide, o atleta olímpico é a ponta da pirâmide, a cereja do bolo. A base é a formação humana e o esporte pode ensinar muito. Eu falo com propriedade porque eu me construí no esporte. A minha família é super humilde, meus pais não terminaram nem o primeiro grau, e conseguiram nos dar estudo e nós já crescemos tendo esses valores de casa. Aí eu fui para o esporte e lá eu aprendi a respeitar, a seguir as regras, a trabalhar em equipe. Parece demagogia, mas não é. E mais o que isso, aprendi a fazer o correto quando me convém e, principalmente, quando não me convém. As pessoas pensam que só porque todo mundo faz um coisa errada, pode fazer. Mas não. O certo a fazer é o certo, mesmo que ninguém faça. Eu não vejo o Brasil evoluindo nesse sentido. O processo está invertido. Primeiro, teríamos que começar a investir na base, mas não com fins olímpicos, porque nesse processo de ensinar o esporte ou ensinar através do esporte, poucos vão virar atletas. Agora, nesse processo invertido, ainda 05_200menos vão seguir carreira. Os talentos são cada vez menores. E às vezes até os talentosos vão caindo pelo caminho e chegam até o final os mais dedicados. Esse foi até o meu caso. Eu nunca tive talento nenhum, mas me dedicava, me comprometia e acabei dando certo. Muita gente talentosa ficou pelo caminho. Mas eu acredito muito nisso, a base da pirâmide é usar o esporte na formação humana, ensinando valores. Esporte na dimensão educacional. Depois tem o esporte participação e, por fim, o esporte de alto rendimento. Se a gente fizer esse processo no sentido certo, muito mais talentos surgirão e aqueles que não se transformarem em atletas, vão ter a formação humana. Vão ser grandes cidadãos, grandes profissionais, porque vão ter a educação como base.

EE: Você decidiu se aposentar há pouco tempo. Por quê?

AH: Faz pouco mais de 90 dias que me aposentei. Eu já vou fazer 39 anos... EU nunca tive lesão grave nenhuma, mas há dois anos comecei a sentir uma dor na extremidade da clavícula (chama articulação externo-clavicular). Isso começou há dois anos, mas eu insisti porque eu amava jogar, amava o dia a dia de me preparar. Eu parei quando ficou inviável. Eu passei seis meses sem dormir, minha qualidade de vida caiu muito, eu não conseguia mais brincar com a minha filha de tanta dor, tomei muitos medicamentos, procurei tratamentos alternativos e nada resolveu. E aí chegou uma hora em que eu não consegui mais achar um ponto de equilíbrio entre ter prazer e também ser empregável, poder oferecer o meu trabalho para algum clube. Nesse momento, a minha carreira pós-vôlei já estava se encaminhando.

 

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André sai de quadra aplaudido em sua despedida, jogo que reuniu amigos e feras do vôlei, em julho

 

EE: Então, o que você está fazendo agora?

06_200AH: Eu sempre pensei em me preparar para parar. Eu brinco que eu penso nesse pós-vôlei desde que eu comecei a jogar. Claro que eu não consegui fazer grandes coisas porque eu fiquei 12 anos na seleção, e lá é assim: come, treina, dorme. Mas eu tentei fazer alguns cursos, eu faço uma faculdade desde 1996 e estou na metade do curso ainda (risos). Não parei e não vou parar. Não posso jogar fora todo o meu conhecimento e minha consciência corporal, então eu estou fazendo Educação Física. Depois quero fazer uma especialização em gestão esportiva e, dependendo, uma outra em educação esportiva. Eu sou apaixonado por isso. Eu sou coordenador técnico da nossa equipe de alta performance, tem uma parte administrativa e uma parte de gestão. Também cedo minha imagem para a Brasil Kirin, estou fazendo muitas palestras para eles, é a parte que eu mais tenho prazer inclusive: passar uma mensagem para as pessoas. Estou fazendo muitos bate-papos em escolas e universidades, sou encantado em fazer isso. É muito legal. 

EE: Nós também fazemos essas palestras em escolas...

AH: Muito legal. Eu tenho muitos projetos e um sonho, que passou a ser uma meta, que é ter uma escola que use o vôlei como ferramenta de educação, nesse formato que eu já falei. A ideia seria uma parceria com esse meu amigo Daniel. Como eu não sou formado, quero um especialista por trás, tem que ter.

EE: Dentro da estrutura política do Brasil, como você enxerga a estrutura para o esporte nas escolas? O que você acha da educação física na escola hoje?

AH: Podendo crescer de maneira geral, óbvio. Em algumas escolas, em algumas regiões, a gente depende de iniciativas dos professores, às vezes não. Às vezes nem mesmo os professores são preparados para isso, principalmente na rede pública. Mas o principal disso tudo, antes mesmo de poder julgar o que está acontecendo 07_200nas escolas, é saber diferenciar bem o que é o esporte na escola do esporte da escola. Porque o esporte da escola, que é o que mais acontece, é o professor chegar lá e dar uma bola para as crianças. Não é só isso. O esporte na escola é aquele de cunho educacional, em que o principal objetivo é educar a criança no domínio motor, cognitivo e afetivo-social. Não tem como separar os três. A criança ou o jovem tem que ser educado de maneira integral. Não tem como dividir a criança e falar que está trabalhando só o corpo. Eu gosto de uma frase de Rubem Alves: “o esporte não é simplesmente um jogo de braços e pernas”. É muito mais do que isso, a gente desenvolve a criança ou o adolescente de maneira integral. No momento em que a gente está ensinando algum movimento do vôlei adequado para aquela idade, isso implica numa ação cognitiva da criança e nas relações sociais com os companheiros. Eu acho que tem que ter bastante cuidado. Até porque o nosso objetivo, no que eu penso que seja o ideal, é formar o ser humano e não um atleta. Se depois demonstrar talento e outras coisas mais, a gente pode encaminhar para uma escolinha, que vai ensinar fundamento, vai ensinar a técnica. Essa diferenciação tem que existir nas escolas.

EE: O que você acha da política esportiva para o alto rendimento? O bolsa-atleta é suficiente ou está faltando estrutura para o esporte? A gente quer medalhas na Olimpíada, mas você vê a direção do esporte se movimentando para isso?

AH: A passos lentos, eu acho. O mais fácil é sair distribuindo dinheiro, mas não é isso que resolve. Tem que investir em estrutura e em qualificação dos professores, porque são eles que vão ensinar. Tem muito professor bom, assim como tem professor ruim, ou mal preparado ou mal capacitado. Tem muita gente boa que não tem condições de trabalho. Tem muito professor ensinando vôlei com barbante e dois canos, ou ensinando com garrafa pet. Tem muita gente fazendo milagre.

EE: Mas e para o alto rendimento efetivamente?

AH: Então, eu acho que tudo começa na base.

EE: Mas eu digo política direcionada para o esporte de alto rendimento. O Brasil está oferecendo estrutura, com equipe multidisciplinar para os atletas?

08_200AH: Não. Eu falo com propriedade do vôlei, mas eu sei que nos outros esportes é muito precária a estrutura de tudo que se oferece. E geralmente esses financiamentos acontecem um pouquinho antes das Olimpíadas. É um pecado. O vôlei sempre foi privilegiado, mas privilegiado porque conquistou, porque se planejou, porque tem uma confederação forte, por mais que a gente esteja passando por uma crise. Os clubes já foram mais fortes no Brasil. a gente está lutando para que isso melhore. Mas dos outros esportes a gente não vê quase nada. Estávamos falando do caso do taekwondo, não tem quase nada. Eu não posso só pensar no vôlei, como futuro educador físico ou professor. O vôlei para mim é um esporte como todos os outros, não é só porque eu joguei vôlei que eu acho que está tudo bem. Não, não está tudo bem, nós não temos o básico.

EE: Esse impacto do escândalo da CBV vai comprometer o andamento do projeto?

AH: Olha, eu sou um idealista e um cara super positivo. Eu vejo esse momento como uma crise que veio para a gente achar o caminho certo de novo. Já dizia o Medina que a crise é uma bela oportunidade de se transformar. Inclusive eu falei com pessoas de lá, que a gente tem que trabalhar para que isso passe e a gente volte para o caminho correto. Tem muita gente boa e que trabalha em prol do vôlei dentro da CBV e nos clubes.

EE: Como é ser atleta do Bernardinho?

AH: Eu sou suspeito para falar. Eu comecei a ser atleta dele em 2001 e a gente demorou um pouquinho para ter uma sinergia bacana. Eu vou assumir a minha parte, que eu demorei para entender qual era a minha função lá. Realmente eu demorei. A partir do momento que eu entendi, e essa história é famosa, porque quando eu anunciei a minha aposentadoria o Bernardo entrou ao vivo no programa do SporTV e ele contou esse episódio com a mesma percepção que eu tive. A partir daquele momento, em 2002, a gente mudou a maneira de lidar, eu mudei a minha cabeça totalmente.

Naquele ano, fui cortado antes do Mundial e fiquei arrasado. Chorei, fui na comissão técnica e perguntei para ele o que eu tinha que fazer para voltar e ele me deu umas coordenadas. Naquele momento, eu entendi uma coisa que eu sempre buscava, mas não conseguia botar em prática, que é ver a situação com os olhos do técnico. Então, tive um clique e eu passei a ver a situação com os olhos dele. O meu corte não dizia respeito a mim, dizia respeito à seleção brasileira. E eu fiquei muito tempo refletindo sobre isso, porque fiquei muito chateado. A seleção brasileira era a minha vida, eu vinha de uma família muito humilde e a seleção também representava isso, uma evolução na minha carreira, até financeiramente. Eu passei a entender isso, voltei para a seleção no ano seguinte e nunca mais saí. 09_200Inclusive fui titular nos anos mais importantes. Outra coisa também mudou: ser titular ou reserva para mim já não representava mais nada, porque eu queria estar na seleção. Estando no banco ou sendo titular, o meu objetivo principal era ajudar a equipe. E nunca mais saí até quando tive que me aposentar, depois de Pequim, porque já era um cara mais velho para a seleção. Mas a nossa relação mudou da água para o vinho no momento que eu entendi isso. E quando ele também percebeu que eu entendi, ele começou a confiar em mim. Então, cada vez mais a gente se deu bem. Nós temos amizade até hoje, eu tenho a maior liberdade em ligar para ele e pedir ajuda ou sugestão, fazer convite. A minha relação com ele é a melhor possível. As pessoas falam que eu falo isso porque deu tudo certo, mas não. Principalmente quando não deu certo foi quando eu aprendi mais. Na minha carreira, eu já tinha essa tendência de trabalhar para a equipe porque eu não era talentoso, fazendo as coisas da maneira mais correta, e essa sinergia deu muito certo. Eu norteei toda a minha carreira e a minha vida pessoal nisso. Eu tento fazer o correto acima de tudo. Eu tento, porque estou sujeito a erros.

EE: Como você vê o futuro do vôlei brasileiro, tão vitorioso quanto a sua geração foi?

AH: É uma pergunta difícil (risos). É muito difícil fazer o que a gente fez, mas não digo isso por vaidade. Eu torço muito para que tudo isso continue, porque vai refletir no nosso cenário nacional, no futuro do vôlei e da CBV. 

10_200EE: Até porque os técnicos em algum momento também serão trocados. Nós temos renovação de técnico?

AH: Então, eu acho o Bernardo e o Zé Roberto muito competentes. Eu posso falar mais sobre o Bernardo. Mas também não depende só de competência, porque tudo tem seu tempo. As relações se desgastam. Um dia ele vai parar. Espero que isso não aconteça, mas um dia não vai dar tão certo. Técnico do nível dele... Porque mais do que um técnico, o Bernardo é um treinador, um líder fenomenal. Nesse sentido, por enquanto, não temos. Mas isso não significa que isso não esteja já em processo. A renovação é inevitável. Até pelo desgaste pessoal dele. Não é fácil. Aqueles cabelos brancos do Bernardo não existiam no início. É muito difícil. Eu costumo falar que um atleta tem que administrar um treinador e talvez um assistente e o preparador físico. O líder ali administra uma galera, 12, 14, 18 jogadores. É muito complicado.

 

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Técnico Bernardinho é carregado pelos jogadores após ouro nos Jogos de Atenas, em 2004

EE: André, por que você aceitou ser nosso padrinho no  Sou do Esporte*?

AH: Quando o Sou do Esporte me foi apresentado, vi que aquilo era um sonho. Eu pensei “posso pegar esse sonho para mim também”? (risos) Eu acho o projeto maravilhoso, porque representa o financiamento coletivo. Eu aceitei ser o padrinho até como uma maneira de apoiar. Eu sabia que um dia ia acontecer isso e acho que muita coisa boa ainda vem. É um projeto muito jovem, não é nem uma criança, é um bebê ainda. E tem tudo para dar certo. Eu tenho maior orgulho de fazer parte desse projeto, que é um sonho se tornando realidade.

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EE: O que você acha do doping no esporte? Como é o doping no vôlei? Vocês têm uma boa estrutura educacional sobre o doping?

AH: Sim, sem dúvida. Primeiro que no vôlei, dificilmente um atleta usa alguma coisa. Se eu buscar na minha memória, não lembro de nenhum atleta que tenha usa alguma substância que melhore o rendimento e que seja proibida. 

EE: Mas isso acontece muito por educação, não?

andre-heller-sulamericano2005-cbv-texto_500_01AH: Sim. Mas não tem muitas substâncias capazes de melhorar o desempenho no vôlei. Anabolizante não encaixa no perfil físico do atleta do vôlei, que precisa ter muita explosão. Os poucos casos de doping que aconteceram foram por drogas sociais ou até medicamentos. Acontece, por exemplo, de o jogador tomar uma medicação que tem efedrina e não sabia. Isso pode acontecer. O que eu lembro foram alguns episódios de maconha, mas isso até vai muito além do esporte. É uma droga, é ilegal. Não é que não possa ser usada no esporte, não pode ser usada em lugar nenhum. Eu acho que não combina. Eu interpreto o doping como uma coisa ilegal, imoral, antiética e que não combina com o esporte. não tem nada a ver com o esporte, com cidadania, com o ser humano. É inadmissível uma coisa dessa.

EE: Para você, o esporte é essencial?

AH: Sem dúvida. Além de essencial, o esporte é vital. Através do esporte e da atividade física, a gente pode buscar qualidade de vida, bem estar, prazer, lazer, recreação. E muito mais do que isso – até sendo repetitivo – esporte é educação. Através do esporte eu me eduquei, eu me construí. A gente tem que pensar no esporte em todas as suas dimensões, em tudo o que ele pode oferecer. E ele pode oferecer muita coisa, por isso ele é essencial.

Fotos: Divulgação/CBV e Divulgação/Brasil Kirin


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