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André Cintra (Snowboard)

05/11/2013
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andre-cintra_680O primeiro brasileiro da história classificado para as Paralimpíadas de Inverno

 

Por Katryn Dias

Em janeiro, André Cintra participou pela primeira vez de uma competição internacional de snowboard e, em menos de um ano, já estava entre os 20 melhores do mundo no ranking. Como consequência pela determinação, o paulista garantiu uma vaga inédita para o Brasil nas Paralimpíadas de Inverno e agora encara a missão de trazer um bom resultado.

"Se as categorias fossem separadas, hoje eu estaria em 3º lugar do mundo, entre os amputados acima do joelho."

André é um apaixonado por adrenalina e pratica esportes radicais desde criança. Aos 17 anos, sofreu um acidente e teve a perna direita amputada, mas nem isso o impediu de continuar fazendo o que gosta. Continuou praticando diversos esportes e hoje é um exemplo para muitos atletas e paratletas nacionais. Assim como Fernando Aranha, André Cintra quer ajudar a abrir as portas dos esportes de inverno para os brasileiros.


EE: Você sempre gostou de esportes radicais? O que costumava praticar na infância e adolescência?

AC: Desde criança eu já gostava de esporte, e principalmente de modalidades mais radicais. Na verdade, nem sei ao certo como comecei tudo isso (risos). Desde criança eu andava de skate e fazia Tow-in *. Depois, comecei a fazer wakeboard e fui conhecendo outros esportes.

* Técnica onde o surfista é rebocado por um jet-ski até a onda


EE: Como foi o seu processo de readaptação, depois do acidente que causou a amputação da sua perna direita aos 17 anos? O esporte te ajudou nessa fase?

AC: O esporte me ajudou muito. Eu sempre tive um pensamento: “a mente manda, o corpo obedece”. Acho que pensar assim foi bem importante... Logo depois que sofri o acidente, acabei fazendo uma viagem até o Nepal para fazer rafting com mais 12 caras do Brasil. Nós descemos corredeiras nível 5 e 6, que são as mais difíceis do mundo (as corredeiras são classificadas de 1 a 6 quanto a dificuldade), durante seis dias. Nós entramos no rio e só fomos encontrar a próxima estrada seis dias depois.

andr-cintra-cbdn4-texto_450Então, essa viagem foi bem interessante porque me mostrou que eu podia continuar a minha vida, e até mesmo o esporte, usando as próteses. Quando eu voltei para o Brasil, continuei praticando esportes. No esqui, comecei a fazer slalom com uma perna só e um único esqui. Logo depois já estava fazendo wakeboard, pegando onda de caiaque, fazendo um pouco de Tow-in e, mais tarde, conheci o kitesurfe.


EE: Como você chegou ao snowboard?

AC: Eu cheguei ao snowboard através do kitesurfe. Há alguns anos, eu pratico kitesurfe e sempre tive vontade de me aventurar no snowboard, por ser mais um esporte com prancha e radical. Uma vez surgiu a oportunidade. Uns amigos estavam indo para a montanha e eu embarquei na trip. Eu queria muito ir testar esse novo esporte. Quando cheguei, não consegui descer a montanha direito porque não tinha uma prótese específica para fazer snowboard. Então, sofri bastante nas primeiras tentativas.

Na segunda vez que viajei e não consegui descer a montanha, percebi que precisava arrumar uma prótese específica para praticar snowboard. Até que um dia, durante uma viagem para os Estados Unidos, descobri um cara que vendia próteses para snowboard e comprei. Em seguida, fiz uma viagem para a Áustria para poder testar essa perna. E foi a partir daí que eu comecei a fazer snowboard de verdade.

EE: Praticando todos esses esportes, alguma vez você cogitou a possibilidade de se tornar um atleta?

AC: Não, nunca pensei. Sempre fui esportista por gosto, tinha prazer em sentir a adrenalina de cada modalidade. Para mim, nunca foi uma questão de competição.

EE: Se você nunca pensou em competir, como te descobriram? Como você chegou à seleção brasileira?

AC: O universo é muito interessante, vai fazendo as coisas sem que a gente perceba e quando menos esperamos, coisas boas acontecem. Em resumo, a história foi a seguinte: eu sempre fazia prótese em um lugar que deixou de me atender e aí tive que procurar outro. Um dia, quando estava lá, comecei a conversar com um menino que tinha acabado de sofrer um acidente e também tinha perdido a perna. Estava explicando para ele que dava para continuar fazendo tudo e contei que eu até esquiava. Nesse momento, o dono da ortopedia passou, ouviu a conversa e se interessou. Ele me contou que tinha um cara da seleção brasileira procurando um esquiador e me passou o contato.

andr-cintra-cbdn8-texto_450Eu fui até ele e me apresentei. Demorou um pouco para me chamarem, até porque tinham outros nomes na minha frente, mas por fim me convidaram para um prova. Eu estava voltando do Chile quando a CBDN me convidou e tive que embarcar de volta para lá dois dias depois. Corri para arrumar tudo, embarquei, fiz uma prova de giant slalom e passei. O pessoal da equipe brasileira gostou do que viu e me convidou para entrar na seleção.

EE: Você já entrou direto no projeto para conseguir a vaga para as Paralimpíadas de Inverno?

AC: Isso, exatamente. A missão do Comitê Paralímpico e da CBDN era encontrar um representante para tentar disputar a vaga. Ou seja, meu primeiro objetivo dentro do projeto era conseguir a classificação para Sochi. Ninguém sabia como ia ser, nem eu, nem eles. Esse era um sonho que tanto poderia ser realizado agora, quanto poderia ficar para a próxima edição. Não era uma certeza, principalmente porque eu esquio há muito pouco tempo, perto dos outros competidores, tenho pouca experiência e não moro na neve. Tem uma série de fatores que dificultam, mas eles apostaram em mim. Eles me deram toda estrutura e suporte na parte técnica, de conhecimentos e equipamentos. E eu consegui aprender algumas coisas de maneira rápida e entrei no ranking mundial – quando comecei a competir eu não estava nem no ranking. Em pouco tempo, fui subindo e cheguei a 18º do ranking, posição que ocupo hoje. Como os 32 primeiros vão para as Paralimpíadas, eu estou dentro.

EE: Você conseguiu adaptar os treinos para continuar em forma quando está no Brasil? Como são os treinos sem neve?

AC: Olha, eu faço outros esportes. Claro que o ideal não é isso... Como não moro na neve, faço outros esportes aqui que me mantém em forma, mas são completamente diferentes. Geralmente, pratico esportes como kitesurfe e wakeboard, corro, pedalo, jogo squash... Mas nada disso se compara ao snowboard, que é um esporte muito específico, tanto pelo contato com a neve quanto pela angulação da montanha.

 

A missão Sochi

 

EE: Você vai ter algum tempo de treinamento antes de disputar os Jogos de Sochi, em fevereiro?

AC: Eu ainda tenho de seis a oito provas antes dos Jogos, a partir de janeiro do ano que vem. Então, a continuação da minha preparação começa em janeiro. No comecinho do mês, devo ir para os Estados Unidos fazer algumas provas, depois para o Canadá, Eslovênia e Rússia.

EE: O que você sentiu quando descobriu que tinha sua vaga para Sochi foi confirmada, a primeira do Brasil nos Jogos Paralímpicos de Inverno?

AC: Eu me senti feliz. É difícil dizer ao certo como foi a sensação, porque é uma experiência muito nova para mim ainda. Claro que fiquei muito feliz e orgulhoso, mas também enxerguei o tamanho da responsabilidade que tenho. Agora, tenho a missão de representar o Brasil nos Jogos Paralímpicos de Inverno.

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EE: Qual foi a maior competição que você já participou na vida?

AC: Até hoje, a maior foi uma etapa da Copa do Mundo da modalidade. Agora, competir em uma Paralimpíada requer bastante responsabilidade... Eles estavam fazendo os uniformes e carregar a bandeira no peito não é uma coisa simples!

EE: Nas Paralimpíadas de Sochi, as provas de snowboard vão reunir atletas com deficiências diferentes, que têm a amputação abaixo do joelho e outros que têm a amputação acima. O que você achou dessa decisão? Para você, a competição fica injusta?

AC: Como é a primeira vez que o snowboard entra no programa com a categoria boardercross, nessas Paralimpíadas as provas vão reunir atletas com amputações diferentes. As categorias de amputação acima do joelho e amputação abaixo do joelho ainda estão juntas, infelizmente. Dos 17 atletas que estão na minha frente no ranking, 15 são atletas com amputação abaixo do joelho. Então, se as categorias fossem separadas, hoje eu estaria em 3º lugar, entre os amputados acima do joelho.

"É possível que um dia o Brasil chegue ao pódio em uma Olimpíada ou Paralimpíada de Inverno, porque o trabalho que está sendo feito é muito sério e muito bonito."

Acho que injusta é uma palavra muito dura. Eu diria que são esportes diferentes. O snowboard exige muito o joelho. É completamente diferente fazer as manobras com um joelho humano do que usando um joelho mecânico. Tanto que do primeiro lugar abaixo do joelho para o primeiro lugar acima do joelho tem uma diferença de quase 12 segundos. Numa prova de 58 segundos, isso é quase um terço do total. Então, é uma diferença bem grande.

Tudo é diferente: os movimentos, o posicionamento do corpo e do quadril, o peso colocado sobre o joelho... Na realidade, um atleta não tem controle sobre os movimentos do joelho mecânico. O que muda são posições de mais peso ou menos peso sobre o joelho.

EE: Qual a sua expectativa para as Paralimpíadas de Sochi? O que seria um bom resultado para você?

AC: Só de estar participando de uma Paralimpíada já é um bom resultado. Isso porque tem atletas que estão atrás de mim e tem amputação abaixo do joelho, ou seja, menos limitação do que eu. Então, poder participar já é um sonho, tendo em vista que sou o único competidor de um país que não tem neve.

EE: Você já disse que pretende disputar as Paralimpíadas em 2018, quando terá 38 anos. É possível se manter competitivo até lá?

AC: Bom, isso ainda não está decido. Mas há a possibilidade, principalmente porque o boardercross não é uma modalidade que exige um corpo jovial. Tanto que existem competidores bons hoje com mais idade, tem um, por exemplo, com 41 anos competindo. No snowboard, o que mais conta é experiência na neve e a técnica. Claro que o corpo é importante, mas nesse tipo de esporte outros fatores também pesam. Por isso é possível estar numa Olimpíada com quase 40 anos.

EE: Hoje, o Brasil tem poucos paratletas nos esportes de inverno. O que poderia ser feito para incentivar mais pessoas a praticar essas modalidades?

AC: O Brasil poderia começar a levar as crianças para a neve, para formar uma base. É importante levar as crianças para começar a praticar os esportes desde cedo. É exatamente isso que os outros países com neve fazem. Desde cedo, pegam as crianças e vão colocando para conhecer os esportes. Esse é o caminho.

andr-cintra-cbdn3-texto_450EE: Você gostaria de deixar alguma mensagem?

AC: Eu tenho que agradecer tudo o que o CPB e a CBDN têm feito por mim. Realmente eles têm sido indispensáveis nesse processo todo. O meu desempenho nas provas é um maneira de agradecimento à pátria. De uma certa forma, o Brasil está por trás de tudo isso e está ajudando muitos atletas. Além disso, todas essas iniciativas estão abrindo caminho para outras pessoas. O importante não sou eu agora, o importante é que está sendo aberto um espaço para os esportes de neve aqui no Brasil. E isso pode resultar em um futuro brilhante! Graças a essa equipe que está dando todo o apoio por trás, que são diretores e funcionários dos Comitês, é possível que um dia o Brasil chegue ao pódio em uma Olimpíada ou Paralimpíada de Inverno. Porque o trabalho que está sendo feito é muito sério e muito bonito.

EE: Para você, o esporte é essencial? O que o esporte representa na sua vida?

AC: O esporte é mais do que essencial! Eu não consigo viver sem esporte. Existem algumas coisas que transcendem a explicação com palavras, e o esporte é uma delas. Eu não consigo explicar por que é tão importante. É uma necessidade, o corpo já me pede. É como se a alma pedisse para fazer isso... É um jeito de ser. 

EE: Cada vez mais, os casos de suspensão por doping têm aumentado entre os paratletas. Como você encara a questão do doping?

AC: As regas são claras e simples: os atletas não devem usar substâncias que modifiquem sua performance natural.

Fotos: Divulgação/CBDN


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