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Amaury Pasos (Basquete)

12/04/2012
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Críticas ao basquete brasileiro por seu “jogador mais valoroso”

Por Nayara Barreto e Thyago Mathias

“Era evidente a evolução do basquetebol mundial e a estagnação do nosso.  Além de não surgirem novos valores individuais por falta, até hoje, de algum programa esportivo que visasse a obter a massificação da prática e sua especialização.”

“O governo continua em berço esplendido, clamando por resultados e nada fazendo para instituir na escola pública de todo o Brasil a prática esportiva, única forma de massificar a prática das diversas modalidades e complementar a educação de nossas crianças e adolescentes. Especificamente no basquetebol, não foi aproveitado o grande prestígio que o país desfrutou após a Década de Ouro e nada se fez para incutir e desenvolver sua prática e incluir as modalidades esportivas como parte fundamental do ensino nas aulas de educação física.”

Aclamado como most valuable player –MVP, ou jogador mais valoroso, em português – na conquista do bicampeonato mundial de basquete, em 1959 e em 1963, o paulistano Amaury Antônio Pasos (pronuncia-se Passos, segundo a origem argentina do sobrenome) ajudou o Brasil a trazer dois bronzes olímpicos, em Roma 1960 e Tóquio 1964. Foram os melhores resultados alcançados pelo basquetebol masculino brasileiro nas edições dos jogos, além do bronze de Londres 1948.

Nesta entrevista ao Memória Olímpica, Pasos não poupa outros jogadores e autoridades ao avaliar o período de declínio que levou o país a ficar 16 anos longe dos Jogos Olímpicos. Leia e compartilhe a experiência deste jogador que foi de pivô a armador, oito vezes campeão sul-americano de basquete e campeão sul-americano de natação.

Memória Olímpica: Já com 18 anos, você integrava a seleção brasileira de basquete. Como foi a sua aproximação com o esporte?

Amaury Pasos: Iniciei minhas atividades esportivas, praticamente, aos três anos. Nesta idade, já nadava e fazia ginástica, pois meu pai achava que eu era muito desengonçado. Assim, meu primeiro esporte de competição foi a natação. Sou filho de argentinos e meu pai veio ao Brasil para tentar melhorar suas condições de trabalho. Foi aqui que nasci, em 1935, em São Paulo, mas minha mãe adoeceu gravemente e voltamos para Buenos Aires, onde faleceu, quando eu tinha cinco anos. Lá completei meus estudos, fui alfabetizado em castelhano, iniciei minhas atividades como nadador da ACM (Associação Cristã de Moços) e cheguei a ser vice-campeão argentino de cadetes na prova dos 400m nado livre... nunca consegui ganhar do campeão Oscar Kramer, um dos melhores nadadores argentinos de todos os tempos. Devido à monotonia dos treinamentos de natação, escapava para jogar basquete com os adultos e, depois de algum tempo, passei a integrar a equipe juvenil do Clube Náutico Buchardo. O técnico me levava para completar a equipe de adultos da primeira divisão, o que, para mim, era motivo de orgulho. Fugindo do regime de Perón, ditador argentino, voltamos ao Brasil. Aqui chegando, fui levado pelo meu pai para frequentar o Clube de Regatas Tietê. Logo nos primeiros dias, me convidaram para jogar na equipe de voleibol juvenil, na qual ganhei dois campeonatos estaduais. Depois, acabei me envolvendo muito mais com o basquete.

MO: O que fez com que você escolhesse o basquete? E quando começou a encarar o esporte como uma profissão?

AP: O basquete me escolheu. Nunca esqueço o dia em que o técnico de basquete Oscar Guaranha, ao me ver treinando umas bolas na cesta da quadra externa, disse: “Nenê, larga esse jogo de vôlei e vem treinar comigo”. Assim começou minha carreira no basquetebol e acabei realmente me apaixonando pelo esporte. Joguei no aspirantes do Tietê e consegui furar a “panela” da equipe principal, o que me levou, aos 18 anos, a ser convocado para integrar os treinamentos da seleção brasileira que disputaria o campeonato mundial de 1954, no Rio de Janeiro. Devo isto ao meu técnico na ocasião, Mario Amâncio Duarte, que pediu ao Kanela (apelido do técnico Togo Renan Soares) para que me convocasse e desse a oportunidade de aprender mais. Eu me dei bem e acabei sendo titular da equipe, ao lado de outro jovem, o Wlamir Marques. Conquistamos o vice-campeonato mundial. O interessante é que não necessariamente me “profissionalizei” no basquete, pois não deixei de jogar voleibol e, em 1957, fui campeão brasileiro pela equipe de São Paulo. Além do vôlei, outros esportes integraram minha vida. Representando o Clube Atlético Paulistano, fui várias vezes campeão estadual: joguei polo aquático, representei minha faculdade nas modalidades de salto em altura, salto triplo, 400m rasos e revezamento. Ao deixar de jogar basquetebol, participei de campeonatos de tênis, em que consegui chegar a ser 2ª classe. Atualmente, jogo golfe. Depois disto, não sei o que será. No entanto, nunca me considerei um jogador profissional ou a encarar o esporte como uma profissão. Fui levado ao basquetebol por força de minha aptidão, meu interesse pela prática e recursos técnicos fundamentais.

MO: A Seleção Brasileira de Basquete passou por uma grave crise, ficando fora dos Jogos Olímpicos por 16 anos. Agora, em 2011, a seleção conseguiu a vaga em Londres 2012. No entanto, não teve um bom desempenho nos jogos Pan-Americanos em Guadalajara, esse ano. Qual a sua visão sobre o cenário atual do basquete brasileiro?

AP: Depois do período que ficou conhecido como ‘década de ouro’, houve um pequeno decréscimo na obtenção de títulos internacionais, mas, com as pontuações obtidas anteriormente, o Brasil ainda era considerado a quarta equipe do mundo. Logo depois, houve uma queda mais acentuada. As causas foram diversas: Primeiro, a evolução técnica de equipes como Espanha, Itália, Austrália, notadamente, e ainda a oposição frequente que passamos a sofrer por parte da Argentina – nossa freguesa tradicional e, posteriormente, campeã mundial e vice-campeã olímpica –, de Porto Rico, das Ilhas Virgens e da República Dominicana, principalmente. Era evidente a evolução do basquetebol mundial e a estagnação do nosso.  Além de não surgirem novos valores individuais por falta, até hoje, de algum programa esportivo que visasse a obter a massificação da prática e sua especialização. Os valores que surgiram na chamada Era Oscar foram, pela atuação do Oscar (Schmidt), apagados e destituídos de valor para efeito de formação de equipes, já que o Oscar chamava para si as finalizações, não se importando com a parte defensiva e, menos ainda, com a tática coletiva das equipes em que tomou parte. Observo que, fundamentalmente o basquetebol é um jogo coletivo, solidário, estatístico e de posse de bola definida. Absolutamente não é um jogo de risco. Meu companheiro de seleção e grande amigo, professor Edson Bispo dos Santos, sempre dizia : “O Oscar transformou um jogo coletivo em jogo individual”. Assim passamos um longo período sem poder tomar parte em olimpíadas, a mais importante competição internacional. Fomos a Moscou apenas devido ao boicote dos Estados Unidos aos Jogos de 1980. O mais preocupante é a unanimidade que tomou conta de todos os envolvidos nesta situação anômala: os técnicos, dirigentes e até os próprios jogadores se submeteram a serem figuras coadjuvantes numa atividade essencialmente coletiva. Agora já passou e após brilhante desempenho tático-técnico conseguimos, dentro da quadra, uma vaga olímpica. Alguns defeitos foram sanados, mas ainda há muito a fazer...

MO: Você já declarou que poderia ter prolongado sua participação nas competições olímpicas, pelo menos até os Jogos de Munique, em 1972, mas teve que tomar a decisão de parar. Como foi essa escolha e por que não foi possível continuar?

AP: Quando resolvi parar de jogar, eu o fiz em virtude da necessidade de trabalhar com mais afinco para sustentar minha família de mulher e três filhos. Então, passei a me dedicar aos negócios de empresa familiar fundada por meu pai, ocupação a que me dedico até hoje. Joguei em três olimpíadas: Melbourne (1956), Roma (1960) e Tóquio (1964) e poderia ter participado dos jogos da Cidade do México e de Munique, completando cinco. Apesar da insistência de Kanela, nosso grande técnico, tive de recusar as convocações. Entretanto, joguei quatro campeonatos mundiais no Rio, Santiago, Montevidéu e novamente no Rio. O resultado disso foram dois títulos de campeão, um de vice-campeão e outro de terceiro lugar. Não me arrependo de nada.

MO: E essas experiências com os campeonatos mundiais? Pode nos contar um pouco mais sobre elas?

AP: Cada uma dessas competições possui um encanto diferente. Em 1954, teve a expectativa da estreia, especialmente pelo inesperado de minha escolha para fazer parte da seleção. Só fui convocado em virtude do pedido de dispensa de Miltinho, um jogador do Corinthians, e por um pedido ao Kanela de meu técnico, Mario Amâncio Duarte, do clube Tietê. Quando da minha ida ao Rio para o início dos treinamentos, o Amâncio me disse que provavelmente seria cortado de primeira, mas que esses 10 ou 15 dias treinando junto com a seleção brasileira seriam muito bons para meu desempenho futuro. Estava radiante: aos 18 anos, na seleção brasileira! Pois não apenas não fui cortado, mas me tornei titular da equipe ao lado de Wlamir, Angelim, Algodão e Mair e tive um desempenho notável durante o campeonato, jogando como pivô. Nós nos sagramos vice-campeões mundiais, perdendo apenas a final contra os Estados Unidos. Em 1959, em Santiago do Chile, tivemos a emoção de ser campeões mundiais pela primeira vez. Além disso, tive a satisfação de ter sido considerado o MVP do campeonato. Esses foram os fatos marcantes que jamais esquecerei. Em 1963, mais uma vez na cidade maravilhosa do Rio de Janeiro, com seu povo entusiasta e o Maracanãzinho lotado até o teto, foi inesquecível a conquista do bicampeonato. Mais uma vez, tive a honra de ser considerado o MVP. Finalmente, em 1967, em Montevidéu, terminamos em terceiro, empatados com Iugoslávia e União Soviética. Devido ao saldo de cestas, ficamos com o bronze. Olhando para o passado, disse a mim mesmo: “Quatro campeonatos: dois primeiros, um segundo e um terceiro lugar... não está nada mal”.

MO: Você começou sua vida profissional dentro do basquete atuando como pivô, mas também foi armador. Essa sua capacidade de atuar em diversas posições lhe ajudou na carreira na Seleção?

AP: Lembro que, na primeira ocasião em que representei o Brasil, minha atuação era como pivô, devido a minha estatura de 1,91m – um dos mais altos da equipe. Com o passar dos tempos, aumentou o porte de nossa equipe e fui ficando ‘baixinho’. Então, fui lateral e, finalmente, armador. Tudo, graças aos ensinamentos de meu técnico, Oscar Guaranha, que ficava comigo até depois dos treinos e jogos. Assim, assimilei os fundamentos do jogo. Não sei se fui o melhor, mas com certeza fui e acho que ainda sou o mais completo.

MO: Você conquistou o sexto lugar em Melbourne, Austrália, nos Jogos Olímpicos de 1956. Além disso, conquistou medalha de bronze em Roma 1960 e, novamente, um medalha de bronze em Tóquio 1964. Poderia falar sobre essas experiências?

AP: Considero que a mais alta distinção para um esportista é representar seu país nos Jogos Olímpicos, que é um dos maiores – senão o maior – eventos da civilização atual. Além de ter tido o privilégio de representar nosso país em três oportunidades, tive a honra de obter duas medalhas de bronze, nos Jogos de Roma e Tóquio. Além disso, cada uma dessas competições tem um grande encanto. Nenhuma é mais importante do que a outra, mas todas são muito gratificantes na minha vida como atleta.

MO: Qual a importância e os desafios para o nosso país ao sediar as olimpíadas em 2016? Em que pode melhorar o cenário esportivo nacional?

AP: Em 2016, teremos a honra de sediar os jogos, pela primeira vez na América do Sul. Confesso que encaro essa possibilidade com certo ceticismo. Considero que nosso país tem problemas muito mais urgentes a considerar do que a organização de uma olimpíada. De fato, nossas deficiências estruturais necessitam ser sanadas o mais rápido possível, para oferecer a nossos cidadãos o mínimo indispensável em saúde, educação, saneamento básico, segurança, estradas, ferrovias, aeroportos, portos, etc.. Além destes fatores, considero que a educação esportiva da maior parte de nosso povo deixa a desejar quanto à compreensão de muitas das modalidades que são disputadas nos Jogos, como arco e flecha, adestramento, badminton, hipismo, vela, remo, luta greco-romana, rúgbi, golfe, hockey na grama e muitas outras que serão apreciadas apenas pelos estrangeiros que conseguirem chegar até os locais de competição, por força da falta total de transportes e alojamentos. Esperam-se para os jogos aproximadamente 700 mil visitantes. Outro ponto importante a considerar é o investimento em instalações esportivas que deverão ser construídas para as diversas modalidades. Lembro que o conjunto aquático Maria Lenk, que custou uma fortuna, encontra-se em estado lastimável e carece de total manutenção. Após a realização dos Jogos Pan-Americanos, orçados em 300 milhões de reais e que custou 3 bilhões, imagino o montante de dinheiro que será despendido por ocasião dos jogos olímpicos e, infelizmente, também imagino onde irá parar grande parte desse dinheiro. Voltando aos Jogos Pan-Americanos, considero-os uma competição desprestigiada e a caminho da extinção. São raros os atletas de elite que dele participam.

MO: Você fez parte da seleção em um período de muitas conquistas que foi entre 1950 e 1960. Quais os fatos que mais marcaram sua carreira?

AP: Tive o privilégio e a honra de pertencer à chamada Geração de Ouro do basquetebol brasileiro, que, durante 15 anos, manteve nosso país no grupo de elite do basquete internacional, ao lado de Estados Unidos, da ex-União Soviética e da ex-Iugoslávia. Ressalto a extrema dificuldade em enfrentar esses adversários, principalmente a URSS e a Iugoslávia, pois se constituíam em verdadeiras seleções, hoje dividas em várias nações independentes. A URSS, em 14 e a Iugoslávia, em oito. Deixo os Estados Unidos de lado, pois são um caso à parte. São os fantásticos inventores do jogo, que podem constituir muitas equipes com o mesmo poderio e superar a todos os demais. Mas, durante todo esse período, conquistei o reconhecimento quase unânime daqueles que acompanharam minha trajetória e obtive, principalmente, sentimento de gratificação pelos resultados alcançados. Naqueles tempos, muito mais do que no presente, o Brasil era o país do futebol, a pátria de chuteiras... era a época de Pelé, Garrincha e outros. Figurar ao lado daqueles jogadores foi algo notável.

MO: O que mudou de forma mais geral se compararmos o basquete na sua época para os dias de hoje?

AP: Há mais condições hoje do que havia durante o período em que joguei, para uma dedicação total aos treinamentos e competições internacionais. Ademais, o porte físico dos dias de hoje é muito superior em força e estatura, o que permite um enfrentamento mais cômodo com as equipes americanas e europeias. Meu correspondente em jogos, isto é, o adversário que me cabia marcar ou que me marcava era um jogador entre 2,02m e 2,06m de altura, contra meus 1,91m. Em compensação, a marca registrada de nossa equipe era o contra-ataque, após uma marcação individual na linha da bola e proteção do rebote.

MO: O cenário de patrocínio e investimentos para o esporte brasileiro mudou nas ultimas décadas?

AP: O governo continua em berço esplendido, clamando por resultados e nada fazendo para instituir na escola pública de todo o Brasil a prática esportiva, única forma de massificar a prática das diversas modalidades e complementar a educação de nossas crianças e adolescentes. Especificamente no basquetebol, não foi aproveitado o grande prestígio que o país desfrutou após a Década de Ouro e nada se fez para incutir e desenvolver sua prática e incluir as modalidades esportivas como parte fundamental do ensino nas aulas de educação física. Basta ver a vergonhosa classificação que a ONU outorgou a nosso ensino para ver que o desenvolvimento de esportes como complemento educacional é algo que vai demorar muito para se tornar realidade. Basta folhear um jornal diário e verificar que a parte dita esportiva dedica 90% de seu espaço ao futebol. Nosso ex-presidente adotava metáforas futebolísticas a todo instante e o atual “progresso” por ele propalado é ainda carente de condições de infraestrutura que possam permitir ao nosso país um crescimento sustentável, não só no esporte como em todos os setores de atividade cultural, industrial e produtiva.

MO: Como o senhor avalia o problema do doping nos esportes?

AP: É lamentável o doping que continua a ser praticado, apesar dos males irreparáveis que acometeu a muitos que o adotaram, inclusive a própria morte. É necessário por um fim em sua prática, por meio da conscientização dos atletas, técnicos e médicos esportivos.


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