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Aluizio Bento (professor de Educação Física)

21/08/2012
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Uma voz pela profissionalização do esporte a partir da escola


Por Nayara Barreto e Thyago Mathias

“O incentivo ao esporte de alto rendimento deve começar nas escolas e não nos clubes, como acontece no Brasil. Como professor da rede pública, já encontrei diversos meninos e meninas que são subaproveitados... mas em uma aula de educação física é muito difícil trabalhar isso, tanto pela falta de estrutura das escolas como também pelo incentivo precário que o ensino do esporte recebe.”

Na cidade que sediará a 31ª edição dos Jogos Olímpicos, o professor Aluizio Bento destaca-se por estar à frente de um projeto que tem integrado escolas e estudantes cariocas em torno de jogos cooperativos que trabalham coordenação motora, amizade, respeito, solidariedade. Disciplinas como Português ou Matemática também se integram nas gincanas promovidas por este profissional que, em entrevista ao Memória Olímpica, defende a regulamentação da Educação Física e o incentivo ao esporte de alto rendimento dentro do ambiente escolar.

Memória Olímpica: Como você avalia a educação esportiva na rede pública de ensino brasileira?

Aluizio Bento: Existe muita polêmica em relação a isso. Dois pontos importantes precisam ser abordados: um lado é o da educação esportiva no currículo escolar que é essencial e faz parte da manutenção da saúde e do bem estar do aluno. Mesmo este aspecto não tem sido muito bem trabalhado e aproveitado. O outro é o que diz respeito ao incentivo ao esporte de alto rendimento. Muitos professores são contrários à existência desse tipo de incentivo dentro da escola, pois eles alegam que assim estaríamos excluindo outros alunos que não tenham aptidão para o esporte, mas não é bem assim. Mesmo o incentivo ao esporte de alto rendimento deve começar nas escolas e não nos clubes, como acontece no Brasil. O que falta na educação esportiva da rede pública é esse incentivo massivo ao esporte mais profissional. Acho que o projeto da cidade do Rio de Janeiro, chamado Ginásio Experimental Olímpico, tem uma proposta interessante, pois vai buscar nas escolas as crianças que têm alguma aptidão para o esporte. Isso é muito bom, porque, como professor da rede pública, já encontrei diversos meninos e meninas que são subaproveitados... mas em uma aula de educação física é muito difícil trabalhar isso, tanto pela falta de estrutura das escolas como também pelo incentivo precário que o ensino do esporte recebe.

MO: De que forma o esporte pode ajudar no desenvolvimento de uma criança?

AB: Normalmente, em uma aula de educação física, uso o desporto, como o basquete, o vôlei, o futebol, para trabalhar os aspectos educativos do aluno e desenvolver também os aspectos motores, cognitivos e sociais. Esse trabalho precisa ser sempre conjunto, agregando incentivos dentro de sala de aula e também em quadra. Na área da educação, trabalho muito com o desempenho do estudante dentro de sala. Caso ele não se desenvolva dentro de sala, mas goste muito do esporte, nós interferimos um pouco para que ele não troque uma coisa pela outra e sim agregue os dois tipos de ensino, ou seja, o físico e o cognitivo. Além disso, a prática esportiva traz o ensinamento de regras, boa conduta, responsabilidade, pontualidade... tudo isso reflete nos aspectos social, afetivo e cognitivo da vida da criança.

aluizio_bento_arquivo_pessoal_texto_2_340MO: Qual a principal diferença na vida de uma criança que pratica esporte e uma que não pratica?

AB: A criança que não tem o esporte em sua vida, normalmente tem mais dificuldade de se relacionar com os outros, se torna uma criança amuada, quieta, muito introspectiva e mais tímida. Muitas vezes, essa criança tem muito medo até mesmo de se inserir no meio esportivo. No entanto, depois que a gente consegue colocar esse jovem pela primeira vez na prática do esporte, tudo muda. Tenho exemplos, lá no projeto, de crianças que eram completamente anti-sociais, tinham diversas dificuldades em vários aspectos e que, depois de conhecerem o esporte, perderam a vergonha, a timidez e o medo de errar. Além disso, as professoras também relatam que os alunos praticantes ficam mais espertos e mais atentos. Acho que essas são as principais diferenças.

MO: Qual o momento da criança começar a encarar o esporte com mais seriedade e uma perspectiva até profissional? Como isso deve ser trabalhado na criança?

AB: Acho que dá para trabalhar isso ainda na escola, de uma forma bem lúdica e com brincadeiras. Minha opinião é de que a idade ideal seria a partir dos dez anos. É importante saber que esse trabalho tem que ser feito aos poucos, bem devagar, pois demanda o seguimento de uma rotina muito dura e a criança não pode deixar de viver sua vida de criança. Isso precisa ser conciliado e ela precisa entender as motivações corretas, as responsabilidades, as metas, sem que isso interfira muito em sua vida. Por isso, o trabalho precisa ser global.

MO: Como trabalhar a questão da competitividade e da derrota nas crianças que querem se tornar atletas profissionais?

AB: Esse trabalho vem sendo feito desde o início em nosso projeto e é algo fundamental. No vôlei, por exemplo, os alunos costumavam se cumprimentar com muita raiva, com uma competitividade muito negativa. Foi preciso fazer um trabalho quanto a isso. Explicamos sempre que é preciso valorizar o adversário, pois, perdendo ou ganhando, é devido ao adversário que o jogo e toda a festa acontecem. Ensinamos a eles que é preciso reconhecer que é o adversário que abrilhanta a vitória, que no esporte não é só no placar que se vê uma vitória, mas na trajetória e na luta. Hoje, eles se cumprimentam com muita parceria e entendimento do que é um jogo saudável. Trabalhamos também com eles que perder faz parte do jogo e é serve para que melhorem, mais à frente. 

MO: O que pensa sobre a regulamentação do profissional da educação física?

AB: Lutei muito para que isso acontecesse, participei de várias reuniões e diversas discussões a esse respeito. É importante, porque o profissional já não tem hoje o reconhecimento e o valor que deveria. E olha que muita coisa melhorou depois da regulamentação. Mesmo assim, temos muito o que conquistar ainda. Como a educação física é minha paixão, penso que foi uma grande vitória. Assim, o profissional pode contar com um amparo legal o que, além de valorizar, dá credibilidade e evita que muitas situações nocivas ao professor aconteçam. Se a grande semente para melhorar o país é a escola, você poder fazer seu trabalho regulamentado dentro dessas escolas é, antes de tudo, muito gratificante. Além disso, o professor de educação física esta habilitado para observar diversos outros aspectos e não simplesmente chegar ali e mandar o aluno fazer um esporte. Nossa função vai muito além. A gente observa problemas de saúde, psicológicos, afetivos... tudo o que é essencial para o desenvolvimento do profissional e da criança.

aluizio_bento_arquivo_pessoal_texto_3_420MO: O Brasil tem dado incentivo e reconhecimento apropriados ao profissional da área de educação física?

AB: Melhorou muito, mas ainda está aquém do desejado. Falta muita informação para a população. Você consegue encontrar em qualquer academia pessoas que não são formadas dando aula de educação física ou de musculação. Isso me revolta, pois o próprio poder público burla a lei que regulamenta a profissão e contrata pessoas que não são formadas para darem aula em escolas, além de não fiscalizar devidamente os estabelecimentos privados. Quando um profissional não gabaritado vai desenvolver uma atividade física com uma criança é mais grave ainda, pois a criança está em pleno desenvolvimento ósseo e muscular, então o professor de educação física é quem está apto a escolher a atividade correta. Ainda assim ele não recebe ainda o reconhecimento devido no nosso país.

MO: Que medidas devem ser tomadas para que isso mude?

AB: Primeiramente, deveria ser feita alguma campanha informativa com o intuito de conscientizar a população em relação à importância da alta formação que um professor de educação física deve ter. O poder público deveria fazer isso, juntamente com os próprios professores de educação física. Muitas vezes, os próprios pais desconhecem a importância de um professor e acaba deixando seu filho ser treinado por um ex-atleta ou uma pessoa que não tem nenhuma experiência na área do esporte. Muitos pais colocam seus filhos em escolinhas de futebol sem nem mesmo saber se o treinador está capacitado para fazer esse trabalho. Outra medida seria melhorar a estrutura que é oferecida ao professor da rede pública, pois o descaso é muito triste com uma área da tão importante da educação.

O brasileiro tem muita pressa com as coisas, quer logo ver o resultado e com isso acaba fazendo uso de substâncias ilícitas para queimar etapas. o que faz muito mal ao corpo do atleta. Busco sempre, nas minhas aulas, mostrar os malefícios do uso das drogas.


MO: Você esta à frente de um importante projeto social que tem como objetivo gerar melhorias no processo de ensino por meio da integração social e o desenvolvimento psicomotor, cognitivo, afetivo e social. O projeto conta com atividades lúdicas como corridas, futebol, queimado, dominó, etc.. Você pode explicar como é feito esse trabalho? Como essas atividades se integram com a prática do esporte?

AB: O projeto começou com o professor Odenite, que já foi atleta de pentatlo e que, posteriormente, me convidou para me juntar a ele. Começamos a trabalhar a integração entre alunos de escolas e bairros diferentes para construir uma ligação tanto entre as escolas quanto entre os alunos. Montávamos jogos cooperativos que trabalhavam coordenação motora, amizade, respeito, solidariedade e, claro, fazíamos também atividades que ajudavam no aprendizado deles em sala de aula. Essas atividades funcionam como gincanas em que os alunos precisam praticar o esporte ou efetuar uma tarefa motora e responder a perguntas relacionadas à matéria curricular. Isso incentiva tanto o trabalho em equipe, já que eles são divididos em grupos, quanto o aspecto cognitivo do aluno. Organizamos também torneios de futebol entre escolas, chegamos até a reunir nove escolas. A nossa ideia é ampliar o número de escolas. Inclusive participamos dos conselhos de classe e procuramos observar quais são os alunos que tem problema de disciplina e, a partir disso, procuramos, dentro da aula de educação física, fazer mais gincanas que incluam perguntas relacionadas à matéria em dificuldade. Assim, o projeto tem conseguido atingir seu objetivo que é integrar educação e esporte.

MO: Como estão sendo observados os resultados do projeto?

AB: Obtivemos resultados tanto no sentido técnico como no sentido social e cognitivo.   Conseguimos trabalhar mais alunos habilidosos e melhorar suas habilidades, assim como também trabalhamos aqueles alunos que não se interessam tanto pelo esporte. O projeto tem conseguido atingir ambos os casos. Outro resultado importante é a recuperação de alunos que já não se interessavam mais pela escola ou daqueles que estão prestes a desistir e que voltam a se interessar, pois passaram a encontrar no projeto um motivo a mais para se dedicar e acreditar em seu próprio potencial e capacidade. Posso afirmar que o projeto tem alcançado resultados significativos.

MO: Como você avalia a questão do doping nos esportes?

AB: Neste caso, vou bater novamente na tecla da informação. Acho que falta muita informação. Além disso, o brasileiro tem muita pressa com as coisas, quer logo ver o resultado e com isso acaba fazendo uso de substâncias ilícitas para queimar etapas. Isto, nós todos sabemos, faz muito mal ao corpo do atleta. Busco sempre enfatizar essa questão nas minhas aulas, mostrar os malefícios do uso das drogas. Sou totalmente contra o doping ou qualquer artifício ilegal, mas acontece que, hoje, muitos professores de educação física acabam adotando esse artifício nas academias e no treinamento esportivo. É realmente muito triste, mas acho que, com informação, isso poderia mudar.

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Fotos: Arquivo Pessoal


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