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ENTREVISTAS

Allan do Carmo (Maratona Aquática)

07/04/2015
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Por Katryn Dias

Pouco se falava em maratonas aquáticas no Brasil até que os resultados internacionais começaram a virar rotina. Um dos responsáveis por pódios consecutivos é o baiano Allan do Carmo, atual campeão mundial da modalidade. Em 2014, ele conquistou o ouro em todas as provas que disputou e revela que a única estratégia para se manter no topo é simples: treinar sempre mais.

Focado nos treinos para a temporada 2015, que será intensa, Allan conversou por e-mail com o Esporte Essencial durante sua estada nos Estados Unidos.

 

Esporte Essencial: Como o esporte auxiliou na sua formação pessoal?

01_200_22Allan do Carmo: O esporte me tornou um homem mais focado, determinado e decidido. Além de agregar culturalmente à minha personalidade, porque tive a oportunidade de conhecer vários povos, costumes e cidades e países diferentes. Sinto-me bastante amadurecido e pronto pra enfrentar as dificuldades que a vida nos impõe e pronto para viver, também, tudo o que de bom possa vir em minha direção. 

EE: Quando percebeu que as distâncias tradicionais da natação não bastavam para você? Como foi a sua aproximação com as maratonas?

AC: Foi uma transição muito rápida. Desde muito novo eu já fazia provas de maratonas. E, apesar de rápido, foi gradativa. Comecei com provas de 400m, foi aumentando, aumentando e hoje já nadei provas de 25 km. 

EE: Recentemente você passou por um período de treinos na mesma piscina que a lenda Michael Phelps. Como foi o contato com ele? Como é a estrutura de treinos nos Estados Unidos?

02_200_24AC: Foi uma coisa muito interessante. Uma experiência e tanto. Só de você saber que está no mesmo local que o maior atleta olímpico de todos os tempos, já te dá uma energia extra para treinar. O contato com ele não foi tão grande, mas ficar observando o que ele fazia nos treinos e o que ele comia nas refeições já foi muito satisfatório. Acho que o momento de maior aproximação que tivemos com o Phelps foi quando ele se aproximou de alguns membros da nossa equipe e disse que achava absurdo competir nadando 25 km. 

A respeito da estrutura do Centro de Treinamento Olímpico dos EUA, é realmente um espetáculo. Mais um exemplo de investimento no esporte que devemos seguir. Tudo de primeira qualidade e funcionando no mais perfeito estado. Não tinha nada no centro, por exemplo, que não estivesse funcionando por falta de manutenção. Isso chamou bastante a nossa atenção. 

allan-do-carmo-satiro-sodre-texto_450_01EE: Você acredita que esse período de treinos fora é fundamental para os atletas brasileiros? A estrutura de treinamento no Brasil não atende a todas as necessidades?

AC: Nesse caso não é nem questão de necessidades não atendidas. O ponto necessário que não temos no Brasil para esse treinamento feito no Colorado, Estados Unidos, é a altitude. Então, fomos nesse treinamento específico, que testa muito nossa resistência, em território americano.  É um trabalho que é feito há algum tempo e tem dado bons resultados. É só uma questão geográfica mesmo. Claro que pesa o fato de estarmos no Centro de Treinamento Olímpico americano, mas o grande objetivo de irmos para lá é a altitude. Com nossos profissionais, com nossa metodologia de trabalho, fazemos essas atividades específicas importantíssimas para o decorrer da temporada. 

03_200_20EE: Nos últimos anos, o Brasil alcançou grande destaque nas maratonas aquáticas. A que se devem essas conquistas? Investimento, profissionais, atletas talentosos?

AC: Todos nós sabemos que o investimento no esporte olímpico como um todo há de melhorar. Hoje, as equipes buscam investir na multidisciplinaridade dos profissionais do estafe do atleta. Eu mesmo tenho um técnico, nutricionista, fisioterapeuta, psicólogo, massagista e assessoria de imprensa. Essa dedicação exclusiva de profissionais acompanhando o atleta em suas áreas tem colaborado bastante para que a gente se preocupe somente em fazer nosso trabalho dentro das águas. Acho isso muito importante porque fica notória a profissionalização do “negócio esporte” que escolhemos viver. Com isso, fica por conta da dedicação, do empenho, foco e talento de cada um. Já tivemos provas suficientes de que o Brasil é, de fato, um celeiro de excelentes atletas sem metade dessa estrutura. Imagina se estivermos rodeados de profissionalismo em todos os momentos, desde criança? A tendência é melhorar cada vez mais. 

 

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A forte seleção nacional: Poliana Okimoto, Diogo Vilarinho, Samuel de Bona, Allan do Carmo e Ana Marcela Cunha

 

 

04_200_23EE: De 2007, ano da sua primeira medalha internacional, até 2014, quando você conquistou o título mundial, o que mudou? 

AC: A principal mudança é essa parte do profissionalismo que nossa equipe ganhou com toda essa multidisciplinaridade de cargos e funções. Além disso, tem o fator experiência como ser humano e como atleta. Em 2007, tinha apenas 17 anos. Era um adolescente ainda. Hoje, com 25, sou um adulto, maduro e muito mais experiente dentro e fora d’água. São pontos que percebemos que, aos poucos, vão fazendo a diferença na vida do atleta. À medida que melhora sua estrutura de trabalho e o tempo vão passando, com você trabalhando forte e focado, ganhando mais e mais experiência, os resultados aparecem como queremos e precisamos.

EE: Você conquistou o bronze nos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio. Competir em casa é uma vantagem? Qual sua expectativa para os Jogos Olímpicos de 2016?

05_200_19AC: A minha primeira expectativa para Rio 2106 é estar lá competindo. Tenho dito bastante isso e é preciso manter o foco no trabalho feito passo a passo: primeiro, temos que garantir a vaga no Mundial de Kazan, na Rússia, no mês de maio; depois, lá no Mundial, buscar e garantir a vaga olímpica; só aí que iremos pensar efetivamente na prova e em tudo que envolve as Olimpíadas. No entanto, é impossível negar que a vontade de nadar com a energia do povo no Rio de Janeiro é enorme. E esse desejo alimenta, sim, a expectativa de marcar presença e, quem sabe, fazer história representando nossa nação.

EE: Em 2014, você conquistou todas as provas que disputou. Qual o segredo para o sucesso?

AC: Não existe segredo. A fórmula é uma só: treinamento com muito suor, dedicação e disciplina. Eu, particularmente, procuro me guiar pelos meus sonhos. E buscando realiza-los, procuro treinar muito e seguir em frente. É um caminho que tende a ser feliz. 

 

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Chegada do torneio Rei e Rainha do Mar, do qual Allan foi campeão ao lado da companheira Ana Marcela Cunha


 

06_200_15EE: Atualmente, você é o homem a ser batido na modalidade, tanto no Brasil como no mundo. Quais são suas estratégias para se manter no topo?

AC: Procurar me superar a cada dia. Buscar técnicas, táticas e metas cada vez mais ousadas. Não há nada a ser feito além de buscar melhorar diariamente, superar os meus limites e ter autocrítica para perceber que sempre podemos evoluir em algum aspecto.

EE: Para você, trazer os Jogos Olímpicos ao Brasil pode ajudar o esporte e os atletas nacionais? Como?

AC: É, sem dúvidas, uma visibilidade maior para nosso esporte e nossos atletas. Automaticamente, isso requer um investimento em estrutura, o que é muito importante porque a ideia é que tudo o que for feito para as Olimpíadas fique como legado para nós.  Os Jogos Olímpicos também fazem com que 07_200_20algumas empresas abram os olhos e passem a investir de alguma forma no esporte. Hoje, temos vários projetos sociais ligados ao esporte que são mantidos por empresas, privadas ou não. É uma consequência de se respirar esporte no país das Olimpíadas, acredito. Tenho visto isso muito de perto em Salvador, onde vivo e treino. Lá, sou padrinho de um projeto social com 480 crianças e elas falam a todo instante que o maior sonho é disputar uma Olimpíada. É torcer para que o esporte auxilie na formação delas como pessoas de bem.

EE: Você está no auge da carreira agora. Já pensou no que fará quando parar de competir? Você se preocupa com um plano de pós-carreira?

AC: Sempre é uma preocupação. A vida de atleta é curta e precisamos ser estratégicos nesse sentido. Sei que isso é importante e tenho pensado em algumas coisas para fazer após a vida de atleta. No entanto, como você disse, estou a todo vapor na minha vida como atleta e preciso ter foco nisso. Hoje, não paro de pensar nos caminhos que podem me levar às Olimpíadas. Esse é o foco. Depois disso, pensamos no que pode ser mais adiante. 

allan_do_carmo-facebook-texto2_450EE: Com todas essas conquistas recentes, você sentiu que o seu trabalho, assim como de outros maratonistas aquáticos, está sendo mais reconhecido? Como é a sua relação com a imprensa e os fãs?

AC: Natural que as conquistas trouxessem para o nosso esporte um reconhecimento maior da imprensa e do público em geral. Afinal de contas, para se tornar um ídolo, um atleta precisa de títulos, precisa de feitos em seu esporte. Hoje, temos algum reconhecimento porque conquistamos alguma coisa. Claro que há muito o que ser conquistado. Não estamos satisfeitos nem acomodados. Tem muita coisa pela frente. E isso é um prazer enorme, porque, cada vez mais, sentimos o carinho e a aproximação do torcedor. Sou baiano. Meu povo é muito caloroso. Costumo dizer que a Bahia é o reflexo do Brasil. Então, em qualquer lugar que esteja, me sinto bem, sinto o carinho e a energia positiva. Procuro sempre, principalmente através das redes sociais, buscar e receber essas vibrações dos fãs. Essa relação com o fã, assim como com a imprensa, pode ser ainda melhor. Mas sabemos que tudo depende de nós atletas. Vamos buscar representar nossa nação cada vez melhor para receber esse assédio gostoso na mesma proporção.

EE: Para você, o esporte é essencial?

AC: Sim, porque não forma apenas atletas. Forma ídolos, representantes de uma nação e, principalmente, forma cidadão de bem, educado, disciplinado, companheiro, amigo. O esporte é uma coisa que, se eu pudesse, proporcionaria a todos os seres humano. É quase vital.

08_200_20EE: Qual a sua posição sobre o doping no esporte?

AC: Acho que se dopar é enganar a você mesmo. Trabalho pesado diariamente e consigo perceber a melhora que tenho com isso. Já percebi que o treino é o caminho do ouro. Assim como já entendi que se dopar é ser desonesto com os demais e com você próprio. Então, assim como penso que o esporte é essencial, penso que o doping é desnecessário para quem busca a lealdade, a justiça e a honestidade no esporte.  

 

Fotos: Divulgação/CBDA/Satiro Sodré


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