Últimas Notícias

Homem é preso após ameaça de bomba e tenta levar avião a Soshi...
Esporte que constrói o Brasil.

ENTREVISTAS

Aderval Arvani (Vôlei)

11/05/2016
Esportes relacionados:

11-05-capa-interna_aderval-arvani_680Arte: Paula Sattamini

Por Fernando Hawad

Aderval Arvani fez parte de uma época romântica do esporte brasileiro. Começou no vôlei na década de 1960, quando viver de esporte, que não fosse o futebol, era praticamente impossível no Brasil. Não se jogava por dinheiro. 

A estrutura do vôlei brasileiro daqueles tempos não se compara a de hoje. Mas se o país se tornou uma potência na modalidade, o início dessa história foi escrito por gerações como a de Aderval. Ele estava na seleção que conseguiu a primeira vitória sobre os Estados Unidos em um Campeonato Mundial, em 1970, na Bulgária. Também disputou os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972. Aderval ainda espera um convite para participar do revezamento da tocha do Rio 2016. 

Esporte Essencial: Como tudo começou?

Aderval Arvani: Eu comecei na escola. Jogava nas aulas de Educação Física. Naquela época, o que eu conhecia mais era o basquete. Em 1963, um pessoal do Banespa me chamou para bater uma bola lá. Como eu tinha uma altura boa, eu fui. Mas eu fui para treinar basquete e acabei indo para o vôlei. Deu certo. Comecei lá no Banespa naquele ano, que foi o ano dos Jogos Pan-Americanos de São Paulo. A seleção brasileira ganhou a medalha de ouro no Pan e aquilo me entusiasmou. Foi assim que tudo começou para mim.  

EE: Como era ser jogador de vôlei naquela época? 

olhos_1_3_200AA: Em 1969, quando eu já jogava no Paulistano, foi que começou a minha carreira realmente. Fui convocado em 1970 para a seleção brasileira. Mas naquela época a gente tinha que pagar tudo. Às vezes tinha gente que até perdia o emprego para jogar. Eu não cheguei a perder o emprego porque eu tinha uma ajuda de custos do clube. Trabalhava junto com o diretor do clube em um escritório de Engenharia e treinava de noite para poder estudar em algum período. Mas a maioria das pessoas perdia o emprego para poder jogar pela seleção. E a gente pagava tudo. Os treinamentos da seleção eram no Rio e você tinha que comprar a sua passagem. A maioria não tinha ajuda de custo nenhuma, isso foi começar para valer lá em 1978, 1980.

EE: Em 1970 você foi para o Mundial...

AA: Isso. Foi a primeira convocação que eu recebi. Fui para o Campeonato Mundial em Sofia, na Bulgária. Naquela época o voleibol bem praticado era do lado oriental. Do lado ocidental, não havia quase nada. 

EE: Entendi. E como foi a experiência de ter participado dos Jogos Olímpicos de 1972, em Munique?

AA: Em 1971 eu já tive uma experiência legal que foi o Pan de Cali, na Colômbia. Nós conquistamos a medalha deolhos_3_3_200 bronze. Quando veio a Olimpíada, foi uma coisa muito bacana. A Olimpíada de Munique foi uma divisora de águas. Até aquele momento, os Jogos tinham um padrão. Mas em Munique o padrão aumentou muito em termos de construções, instalações. Infelizmente, aconteceu aquele triste episódio de terrorismo e isso acabou com o clima dos Jogos. No começo, você ia para o ginásio a pé, as pessoas pediam autógrafo. Quando o incidente ocorreu, isso acabou. Você ia para o ginásio cheio de seguranças e o público se afastou porque não tinha como chegar junto. Mas foi uma experiência maravilhosa. Pena que eu não pude participar do desfile de encerramento porque a gente voltou antes por questões de segurança. Então eu não estive no encerramento, mas participei do desfile de abertura e foi muito legal.

EE: Algum jogo daquela Olimpíada foi especial para você?

AA: Tem sim. Inclusive eu tenho até um DVD do jogo Brasil e Romênia, que nós ganhamos de 3 sets a 2. Até um olhos_4_2_200tempo atrás, essa era a partida mais longa de voleibol da história. Foram mais de três horas de jogo. Era aquele sistema de vantagem, não era ponto corrido, como hoje. Uma filha de um dos jogadores, o João Jens, mora na Alemanha e conseguiu o DVD com o último set desse jogo. Foi muito marcante. Ganhar da Romênia foi uma coisa histórica. 

EE: Como era a preparação de vocês naquela época?

AA: A preparação para o Mundial de 1970 foi no Rio de Janeiro. Ficamos na Ilha das Enxadas. A nossa preparação física era típica de um soldado. Acabou que o pessoal não quis ficar. Então levaram a gente para o Clube Naval Piraquê, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Aí melhorou bastante. Era um lugar central. Dava para sair depois dos treinos. Para a Olimpíada de Munique, o Sesi de Santo André, junto com a Prefeitura, comprou a nossa preparação. Nós ficamos concentrados lá no Sesi, tínhamos uma estrutura legal. 

foto_1_680_02

EE: Vocês imaginavam que o vôlei brasileiro poderia se tornar o que é hoje? Quais os fatores que fizeram o Brasil ser uma potência da modalidade?

AA: Quando nós fomos para o Mundial em 1970, o técnico da Tchecoslováquia, que estava no mesmo hotel que a gente, falou que se ele tivesse um plantel como a gente tinha e pudesse treinar como eles treinavam lá na Europa, olhos_5_2_200com certeza seria campeão mundial. Nossos jogadores eram muito versáteis. A gente foi para a Europa algumas vezes achando que estava com um vôlei atualizado, mas estava totalmente desatualizado. Nós aprendíamos algumas coisas, voltávamos para o Brasil, fazíamos aqui, e quando íamos de novo para a Europa, já tinha mudado tudo. Faltava mais intercâmbio para a gente. A partir do momento em que começou o intercâmbio, jogadores foram atuar na Europa, o Brasil cresceu. Os treinamentos passaram a ser em tempo integral, as equipes começaram a investir no esporte. Então, aquilo que o técnico da Tchecoslováquia tinha falado lá atrás, de que quando o Brasil começasse a tratar o vôlei com profissionalismo ia se tornar uma potência, realmente aconteceu. 

EE: Você acompanha vôlei atualmente?

AA: Acompanho. Até o ano passado, eu ainda jogava no master. Mas eu operei o ombro e esse ano não fui para Santos. A gente tem um campeonato de master lá em Santos e também tem o US Open todo ano. Nesse ano vai serolhos_6_2_200 em Orlando. Eu continuo com a minha turma do Paulistano. A gente tem até conversado bastante sobre esse movimento iniciado pela professora Katia Rubio para que os atletas olímpicos carreguem a tocha. Eu ainda não fui convocado, mas gostaria muito de ser chamado. Continuo assistindo vôlei. Hoje eu gosto mais do feminino. Acho que o voleibol feminino ficou mais atraente. O masculino virou um jogo de muita força física. Acho o feminino mais legal. 

EE: Qual a sua expectativa para os Jogos do Rio? O Brasil pode ir ao pódio tanto no masculino, como no feminino?

AA: Acredito que sim. O Brasil é um dos fortes candidatos ao título. No masculino a parada é muito dura. Mas acho que as duas equipes vão ser muito bem preparadas. Sou amigo do Zé Roberto, jogamos juntos na seleção. Com o Bernardinho eu só joguei contra. São dois grandes técnicos, super capacitados. O Brasil é fortíssimo. Mas tem os outros times também, como Rússia e Estados Unidos.

foto_4_640_01Seleção brasileira nos Jogos de Munique 1972: Aderval é o quarto da esquerda para a direita 

EE: Algum atleta da atualidade tem o estilo parecido com o seu?

olhos_7_2_200AA: Atualmente não. O vôlei mudou muito. Quando eu jogava, eu era meio de rede. Mas era meio de rede e passava. Hoje o meio não passa mais. Os caras de hoje também são muito grandes. É um jogo diferente. Mas, um tempo atrás, o Bernard (prata em Los Angeles 1984) e o Amauri (prata em Los Angeles 1984 e ouro em Barcelona 1992) tinham mais ou menos o meu jeito de jogar. O Amauri, inclusive, me tinha como um ídolo. A gente jogava junto no time adulto do Paulistano e eu dava treino para ele no time juvenil.

EE: Sobre essas mudanças, o vôlei realmente se modificou muito em termos de regras e de dinâmica ao longo dos anos. Você acha que o esporte mudou para melhor?

AA: Acho que mudou para melhor. O que tava complicando era a questão da rede. Podia bater na parte de baixo, mas não na de cima. Isso estava um problemão para a arbitragem. Agora acabou. Se bateu na rede, é ponto do adversário. Acho que as mudanças foram ótimas para o vôlei, assim como acho que o tênis precisa dar uma modificada. Os jogos de tênis estão muito longos. Eu adoro ver tênis, mas tem jogo que não dá para assistir. 

EE: Para você, o esporte é essencial?

AA: Para mim, o esporte foi, é, e vai sempre ser essencial em todos os sentidos. No sentido cultural e no sentido social. Fiz grandes amigos no vôlei. A minha esposa é do vôlei, ela jogava também. Com esporte, a vida fica muito mais agradável.  

Fotos: Arquivo Pessoal de Aderval Arvani


Fatal error: Call to a member function getLink() on a non-object in /home/storage/a/b4/92/memoriaolimpicabrasi/public_html/incs/coluna_direita_noticias.codigo.php on line 27